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27.4.17

De início, E agora, aonde vamos? parece ser só um filme divertido, leve, saudosista, despretensioso. Mas, quando você percebe, ele se torna pesado. É um filme político também, "empoderador", para usar um termo da moda, ao mostrar que a vida das mulheres é sofrerem por causa dos homens e impedirem que eles façam bobagens (como se matarem). Refletir sobre duas questões centrais no nosso e em todos os tempos, a guerra e a religião, pelo olhar feminino de Nadine Labaki, é o grande apelo do filme.

É problemático que, por exemplo, a visão de um povo de "alma guerreira" seja positiva em nossa sociedade. Somos educados a pensar que a guerra (as armas, de modo geral) só são usadas para se defender. Mas, como o filme é muito feliz em demonstrar, é muito fácil, se quisermos, encontrar inimigos e ameaças. Até o que poderia ser um problema técnico do longa, que são as cenas de brigas que não convencem, se justificam: pra que uma briga bonita num filme pacifista?

Já quanto à forma como o filme aborda a religião fiquei com um pezinho atrás. A impressão é de que o lado positivo dela é exacerbado. Tanto que, num filme que mete o pau nos homens, pintando-os o tempo todo de bobos, os sacerdotes são poupados. O filme fica meio gospel às vezes. Mas talvez isso seja o lado ateu falando.

A impressão de filme-tese é reforçada, a meu ver, pela escolha de um local indefinido para a história ("uma aldeia entre o céu e a terra"). E a tese é esta: só as mulheres podem nos libertar dessas coisas estúpidas que os homens inventaram e ainda sentem orgulho de ostentar: arma, guerra, violência, intolerância. A elas - as moças - toda honra e toda glória.

4.5.13

Muitos não sabem, mas o jovem Vinícius de Moraes atuou como crítico de cinema, quando vivia em Los Angeles, meca da sétima arte. Li em algum lugar que era sua (primeira) esposa Tati (oxítona) quem escrevia os textos e o marido assinava. Seja como for, o "poetinha" gostava muito de cinema.

O título de seu Cinepoema não é nem um pouco mentiroso. É poesia e cinema. Extremamente visual, com versos curtos a imitar planos rápidos, cortes secos, o peoma é um filme - com a única diferença que o diretor é você, pois os atores encenam dentro da sua cabeça, ao invés de numa tela.

O poema começa contemplativo e "nada acontece" até a metade da sexta estrofe, quando a calmaria é quebrada e o leitor não sabe direito o que acontece, como num bom suspense, a não ser que se trata de uma tragédia.

Cinepoema é um curtinha mudo e P&B. E por falar nisso, jogando com a polissemia de "preto" e "branco", também é noir.

23.5.12

J. Edgar usava suas informações privilegiadas para chantagear, aproveitando-se do zelo dos chantageados com suas imagens. Porém seu arquivo morreu com ele e e seus desafetos puderam manter suas reputações intactas (ou quase). Fora deste mundo, tornou-se inofensivo.

Clint Eastwood o biografa como um gay enrustido. E a verdade do cinema é a verdade do imaginário. J. Edgar era gay, para todos os efeitos. Sua imagem - que ironia! - está "manchada" para sempre. Feitiço contra o feiticeiro. A sutil justiça do cinema.

13.3.12

Tô lendo Agosto, de Rubem Fonseca, e dei uma olhada em trechos da adaptação para a TV (minissérie) que a Globo fez em meados dos anos 90. A série é "fiel" e bem feita, com um ritmo pausado que dificilmente seria aceito hoje em dia. No entanto, ainda deixa muito a desejar em profundidade em relação ao romance. Que é o que normalmente se diz de adaptações de livros para os meios audiovisuais em geral.

Mas parece que Almodóvar consegue superar isso. Não estou falando de adaptações, é que seus filmes lembram livros, no bom sentido (se é que há um mau). É um escritor que filma. Ou alguém duvida que Fale com Ela, por exemplo, não daria um belo livro?

Ele nos proporciona, com imagens, a sensação de que estamos lendo. Ao ver seus filmes não me divirto apenas, penso; não sou entretido, sinto. Ele me emociona sem apelar e sem abrir mão de discussões de altíssimo nível - estéticas (há muita metalinguagem no seu cinema) e filosóficas - Almodóvar consegue ousar passando ao largo de polêmicas; não perde o tom.

Marco, um dos protagonistas de Fale com Ela, sempre chora ao presenciar algo bonito por não poder compartilhar aquele momento com a ex-mulher. Quer algo mais anticlichê para falar de saudade? Almodóvar também escreve diálogos como poucos. E ele não tem pressa, apesar de ser muito lembrado pelo frenesi presente especialmente em seus primeiros filmes. Ele nos transforma em voyeurs de detalhes, como só alguém que gosta  muito de gente é capaz de fazer. Processos rotineiros são mostrados em seus mínimos detalhes e praticamente em tempo real - uma toureira se vestindo, enfermeiros fazendo a higiene da paciente em coma. Como nas descrições dos melhores romances realistas.

16.12.11

Raul - o início, o filme e o meio

Um músico que tocou com Raul declara: "Ele virou outra pessoa depois que ficou famoso. Começou a interpretar o personagem Raul Seixas, que criaram pra ele". Não foi com essas palavras, mas a ideia é essa.

O que Walter Carvalho e seus codiretores fazem no filme é botar os entrevistados para atuarem. Uma se joga na piscina, Paulo Coelho pratica tiro ao alvo. Atitudes que aparentemente nada tem a acrescentar sobre o personagem do longa. Mas a (grande) sacada é: "eu estou aqui para falar sobre Raul Seixas mas eu não sou uma mera fonte, sou um personagem."

Dos seus três documentários em longa-metragem de sua filmografia, "Janelas da Alma", "Moacyr- Arte Bruta" e agora "O início", apenas o segundo este paraibano que ficou grande demais para a direção de fotografia realizou sozinho. Não por coincidência, é o menos interessante deles. "Raul" é codirigido pelo experiente Evaldo Mocarzel. E a ficção "Cazuza", aquele com Daniel Oliveira, também é uma parceria, com Sandra Werneck.

Bom, como já ressaltei, o filme além de explorar muitíssimo bem o megacarismático roqueiro baiano, tem o mérito de fazer dos depoentes personagens. Destarte, surge no ecrã um Paulo Coelho como nunca visto na história do documentário brasileiro. Simpático, divertido. A ponto de ser aplaudido durante a sessão, no FestAruanda.

Talvez o único problema do filme seja o regabofe exagerado. É dado tempo e destaque excessivos a celebridades como Bial, Caetano e o supracitado mago. Se bem que a favor deste pesa o fato de ele ter sido parceiro do maluco beleza... Mas mesmo assim.

Ou talvez eu que esteja sendo cri cri. Afinal são duas horas de filme, que absolutamente voam.

Um dos melhores documentários brasileiros sobre música que já vi, sem dúvida alguma.

P.S. Li um comentário de um idiota no Youtube que diz: "Ah, seria melhor se fizessem um filme sobre ele em vez de um documentário (sic)". Não, meu chapa, não seria nem fodendo. Seria melhor, isso sim, se Walter tivesse realizado um documentário sobre Cazuza ao invés de uma ficção.

24.9.11

Os quatro problemas de "Viajo porque preciso, volto porque te amo"

1) Semidocumental, os diretores resolvem explorar uma romaria a Juazeiro do Norte. A ideia é mostrar ao resto do Brasil e ao mundo a fé do sertanejo com crítica social: ainda se viaja de pau-de-arara. O problema é o pretexto pra incluir isso no roteiro: o protagonista José Renato (Irandhir Santos) desabafa que "precisa ver gente".

2) O segundo é ao mesmo tempo uma decorrência e uma repetição do primeiro. Sai Juazeiro, entra Caruaru. Mais uma vez a desculpa soa forçada: "Queria me perder no meio daquela feira". A intenção do filme foi aproveitar os ícones do interior nordestino: a fé no Padre Cícero, a Feira de Caruaru e o rio São Francisco, que aparece mais pro fim da história.

3) José Renato, em plena dor-de-cotovelo, tem um pesadelo em que sofre uma cirurgia craniana, e de dentro da sua cabeça saem partes do corpo da mulher amada... Obviedade que beira o mau gosto. Castigo: assistir David Lynch.

4) Saindo do roteiro pra direção, achei a narração pouco natural em alguns momentos. No caso do pesadelo, que já comentei, o relato sai sem pausas, pouco comum em quem rememora um sonho.

Mas eu só falei dos problemas porque sou do contra. O filme é belíssimo, como tudo que a dupla Karim Ainouz-Marcelo Gomes já fez.

11.7.11

Cilada!

Piadas sem graça - pra dar uma ideia, há um personagem chamado "Marconha" e um comodismo machista que surpreende quem espera um humor um pouco mais ousado vindo de alguém tido como cool, caso de Bruno Mazzeo, definem Cilada.com.

De tanto insistir, o longa até faz rir em alguns momentos, até porque conta com atores engraçados, como Serjão Loroza. Mas o mau gosto predomina, além da fraqueza dos protagonistas enquanto personagens, o que explica por que a obra fracassa como "romântica" ainda mais do que como "comédia".

Abandonado pela namorada, Bruno se esforça mais pra melhorar sua reputação depois que um vídeo queimação vaza no Youtube, do que pra voltar com a amada. Esta, por sua vez, ao saber-se traída tem a reação de postar o tal vídeo como vingança. Eis a heroína da história.

Paralelamente à tentativa de reverter a fama de ejaculador precoce(!), o galã(?) tenta ficar com um monte de gente, o que dá a entender que só porque não consegue é que acaba se esforçando pra retomar o namoro com Fernanda (Paes Leme). Pergunto: e se fosse o contrário? E se a metade feminina do par fosse a galinha, ainda seria perdoada (pelo público, inclusive)?

8.11.10

Autobiográfico, A Suprema Felicidade é Jabor brincando de Fellini

Jabor tá se achando. Fez seu Amarcord. E fez pros amigos do Cinema Novo, já que a estética do filme é datada, inclusive com clichês do tipo relacionar eventos da natureza a atitudes humanas... Tem coisa pior por aí, mas como resultado, o filme é um Sub-Eu me Lembro.

Mudando de assunto mas continuando no mesmo assunto, como diria Maranhão, achei essa entrevista, deliciosa, principalmente por dar uma ideia do que já foi nosso cinema (aqui não vai um juízo de valor; não sou necessariamente saudosista).

Um trecho, só pra dar vontade:


E não era nenhuma passeata contra o filme?

Cláudio Cunha: Não, era fila, mesmo! E não era pra menos: na entrada no Marabá, em letras garrafais, uma faixa anunciava: "Snuff – O filme em que as atrizes foram estupradas e assassinadas de verdade"; "Snuff - O filme assassino" e coisas desse tipo. Como eu sabia que o filme teria impacto, eu também havia me precavido: contratei duas mulheres para gritarem na primeira sessão. Eram umas professoras que ganhavam um salário de merda, viajavam com a cópia para gritar e controlar a bilheteria. Foi uma loucura, as matines lotavam, e eram aquelas lotações gigantes, com mais de mil pessoas por sessão.

24.9.10

Não sei se já escrevi aqui, mas futebol e cinema são duas coisas que casam muito bem. "Soberano", filme sobre os seis títulos brasileiros do São Paulo, é minha segunda experiência com futebol no cinema, o que é melhor ainda ("Boleiros", de Ugo Giorgetti, por exemplo, é ótimo, mas eu não vi em tela grande). Bem que podiam transmitir jogos ao vivo nos cinemas, como já fazem com shows de Rock. Eu iria fácil.

Na minha sessão, havia cerca de duas pessoas para cada título do São Paulo, ou seja, umas doze. Entre eles, um pai doutrinando o filho, explicando coisas como "esse é o Telê, ele já morreu..."

O melhor do documentário é a vibe Canal 100, com as imagens e os aúdios - locuções de rádio de Fiori Gigliotti, Osmar Santos e outros monstros - de arquivo dos primeiros triunfos tricolores, em 1978 e 1986.

Depois fica mais chato, e a culpa nem é dos diretores/roteiristas, coitados, mas sim do regulamento, que criou os pontos corridos e decepou 96% da emoção dos campeonatos brasileiros. Linear, o clímax de Soberano é no início, com as sensacionais decisões por pênaltis contra Atlético Mineiro e Guarani. O resto é encheção de linguiça e jogo de Ceni. Mas mesmo assim vale a pena.

22.8.10

Cidade de Deus II?

400 contra 1 é bom entretenimento, mas têm vários problemas. O elenco é irregular. O roteiro, confuso, e com uma personagem (a da advogada) totalmente dispensável. No fato de só mostrar o lado de uma das facções dos presos da Ilha Grande durante o regime militar eu não vou me meter, já que o longa é baseado no livro autobiográfico do fundador do Comando Vermelho.

Mas só explicando pra quem não viu nem sabe do que se trata, o filme aborda o cotidiano do presídio conhecido como "Caldeirão do Diabo", habitado por pelo menos quatro grupos que se comiam lá dentro e deram origem ao famoso grupo organizado. O núcleo original do Comando era uma espécie de classe média na Ilha Grande. As atividade do bando fora das grades, que ao menos no filme se resumem a sequestros, bem como sua "ética", também são postas em relevo, naquele esquema de roteiro não-linear, como não podia deixar de ser...

As cenas de impacto não têm impacto. A violência chega mais perto de fazer rir do que chocar, como é o caso de uma sequência no fim do filme, protagonizada por um coadjuvante e que inspirou o titulo do filme (e do livro).

Uma montagem infeliz, com planos curtos demais, que não dá respiro entre um assassinato a facadas (antecedido por um estupro) e uma alegre pelada entre os presos. Só pra ficar num exemplo.

Outro filme que aborda o mesmo tema é "Quase dois irmãos", de Lúcia Murat, com personagens fictícios e que faz uma ponte com os dias de hoje, os reflexos da violência não poupando classe social. Luiz Melodia faz uma ponta.


Mudando de pau pra cacete,

o diferencial de Misto Quente, de Bukowski, é ele falar da adolescência com os valores da adolescência, ou seja, valores estúpidos. Se não fosse assim soaria moralista. É preciso coragem pra escrever assim. Não é livro pra menininhas.

6.3.10

Zapeando ontem tive a imensa sorte de topar com O homem que virou suco, dando sopa na TV Brasil. E o filme é mesmo muito bom. Surpreendentemente moderno, ótimo personagem de José Dumont, anárquico, e trilha de Vital Farias.

30.12.09

+ pilulas

MILK
Sean Penn e Gus Van Sant na melhor forma. Só podia ser um pouco menos longo.

(500) DIAS COM ELA
Bela comédia que inverte os papeis tradicionalmente aplicados ao homem e a mulher na forma de encarar os relacionamentos. Roteiro inteligente, que conta inclusive com divertidas paródias de gêneros. Um final mais amargo do protagonista provavelmente faria o filme deixar de arrecadar alguns milhões, mas me agradaria deveras. Não quer ser realista e passar a ideia de que se a pessoa amada não te quer, a vida continua? Então sejamos coerentes.

ATIVIDADE PARANORMAL
Tem alguns acertos, lá pelo meio do filme você quase começa a gostar, a atriz é boa, mas confia demais na ingenuidade e benevolência do espectador pra embarcar na verossimilhança da coisa. Falso vídeo amador com cortes e enquadramentos de profissional não dá. Mas o pior vem no final: em uma palavra, rídículo.

P.S. E ainda peguei uma sessão (adivinha, no Tambiá) em que as pessoas conversavam como se estivessem na sala de casa, na sua ou na da sogra. Highlights: dois emos comentando ALTO o filme todo e uma mulher que se arrependeu de estar ali quando descobriu que o filme era legendado.

12.12.09

BUDAPESTE

Antes de falar de Budapeste quero deixar logo claro que não li o livro de Chico Buarque ao escrever essas mal-traçadas linhas.

Então vamos lá. O filme é uma boa propaganda do romance. Pelos off do protagonista – o ghostwriter José Costa - a narrativa parece ter muita força pelas experiências que o autor faz com a palavra, o que evidentemente não pode ser alcançado em outro suporte. Walter Carvalho tenta compensar utilizando o que o cinema tem a ser favor, ou seja, as imagens.

Assim, sabiamente o roteiro inclui sequências visuais bastante sugestivas e autossuficientes. São os casos, por exemplo, das cenas que mostram uma gigantesca estátua de Lênin desmontada, sendo levada em um barco por um Danúbio nada azul, e do "Monumento ao escritor desconhecido", uma figura sombria, que lembra a Morte (além de um misterioso personagem do filme), localizada numa praça da capital húngara. Diga-se de passagem, parece que Chico não sabia da existência dessa estátua quando pariu o livro.

O longa tem sequências bonitas, de fato, mas sofre pra manter a pegada. São 100 minutos que duram uns 150. Fotógrafo de origem, Walter Carvalho consegue mostrar alguma desenvoltura dramatúrgica. O problema é mais de casting. Giovanna Antonelli tem naturalmente algo que cansa e Leonardo Medeiros apenas não faz feio. Já o segundo escalão do elenco parece um bando de amadores, no pior sentido. A atriz húngara é linda, mas fraquinha, fraquinha. Podia ter umas aulas com os pirralhos que fazem o filho dela, em idades diferentes.

Aliás, não sei se isso ocorre no romance – espero que não – Kryska parece ser um mero artifício para manter José Costa em solo húngaro na maior parte da história. A personagem não convence.

É PROIBIDO FUMAR

Fez o rapa em Brasília e andaram dizendo que representa uma evolução em relação a Durval Discos, longa anterior da diretora, Anna Muylaert.

Bom, pra mim "Durval" é que é obra-prima e "É proibido", apenas um bom filme. Divertido, um roteiro acima da média e um Paulo Miklos – esse sim - impressionante.

Glória Pires claramente tá ali só pra atrair financiamento (na fase de produção) e bilheteria (na distribuição). A sensação é a de que a personagem (riquíssima) merecia outra intérprete.

Outro acerto, assim como ocorreu em Durval, é a trilha sonora – excelente, com Jorge bem do começo ao fim.

23.5.09



Vinicius de oliveira (foto), o garotinho de Central do Brasil, andava sumido. Carismático, mas limitado, ele até tentou fazer novela na época mas não deu muito certo.

Agora eis que Walter Salles faz uma caridade e o convida pra Linha de Passe. E é uma escolha feliz, porque o papel não exige muito. Basicamente, o que o rapaz faz é cara de sofrimento. Toda a frustração de anos de desemprego (do ator) passa para o personagem, um aspirante a jogador de futebol que vai envelhecendo sem conseguir vingar.

Mas quando Vinícius abre a boca, a vergonha alheia entra em cena. Sabendo disso ou não, os roteiristas lhe deram poucas falas.

Já Sandra Corveloni está bem, mas apenas, com o perdão do trocadilho, cumpre seu papel. Nada que mereça Cannes.

Se Salles topou dirigir o chatíssimo Água Negra pra sentir o que é filmar em Hollywood, parece que ele fez Linha de Passe pra entrar pra essa turma que anda filmando na periferia. Embora não trate diretamente de violência, como Cidade de Deus ou Tropa de Elite, há a famosa questão social e um roteiro modernoso, intercalando a vida dos membros da família.

O que é convincente são as cenas de futebol. Nunca tinha visto partidas tão bem emuladas, e o clássico (real) entre São Paulo e Corinthians rende belas imagens na abertura do filme. Mas no geral esse é o trabalho mais dispensável do diretor. Depois de Água Negra, claro.

12.6.08

O sonho de ser Dostoievsky

(Atenção: meio spoiler)

O sonho de Cassandra é bastante parecido com Match Point. Além de se passar em Londres, é em "Crime e Castigo" mais uma vez que Woody Allen vai beber. Outras referências caras ao cineasta estão presentes, como a tragédia grega e os questionamentos filosóficos, religiosos e sobretudo morais.

A carga trágica da trama não está em fatores externos aos protagonistas, mas nasce de suas próprias consciências. A dupla em questão é vivida por Colin Farrell, ótimo como o irmão dilacerado por vários vícios e Ewan McGregor, competente como sempre (e que andava sumido), encarnando o lado cerebral e frio do par. Sua atuação lembra a de Jonathan Rhys Meyers, que faz o personagem principal de Match Point.

Diferentes no temperamento, os irmãos têm fraquezas também distintas. Um encontra-se com uma dívida de jogo, o outro deseja manter um padrão de vida que não corresponde à sua conta bancária.

Necessidades diferentes que levam a um crime em comum. Porém, na ressaca do delito o contraste entre os temperamentos dos dois volta à tona, o que leva à tragédia...

Pra finalizar, mais uma coincidência: em Match Point, o mote da história é comparado a uma partida de tênis. Aqui, mais uma vez há uma metáfora esportiva: o pôquer.

3.6.08

É a vida. E nem sempre é bonita.

Fui numa palestra com Marçal Aquino e ele citou "Onde os fracos não têm vez" entre os bons filmes que viu recentemamente. "O xerife acorda e enquanto toma café conta à mulher sobre o que sonhou à noite. O filme acaba assim porque a vida é assim."
Eu não tinha visto o filme ainda. Soube que meu cunhado baixou e lhe pedi uma cópia. Ele ficou surpreso ao saber que gostei. "É muito sem sal!"
Fiquei me perguntando por que um filme que tem chacinas, perseguições, psicopata e o escambau pode ser considerado sem sal. É a não-espetacularização. O filme é seco. Não tem música de suspense avisando que um ataque ou acidente se aproxima. Aliás, a batida que rola no final do filme, nas maõs de um John Woo ou um diretor de ação que goste de muito sal, seria filmada com trezentas câmeras, slow motion etc. e duraria minutos, com direito a closes de rostos horrorizados. Não é assim com os Coen. Como não é assim com Spike Jonze, por exemplo.
Já do final foi meu pai que reclamou. "Que porra é essa que o bandido não é preso e nem morre?" A vida é assim. E tem gente, muita gente, que não quer ver vida. A ficção com sal seria uma compensação pra uma vida insossa..?

Eu estranhei a falta de humor no filme, diferentemente do que vi em Fargo e O grande Lebowski, os outros dois que vi da dupla. Me lembou Almodóvar, que tem feito um cinema cada vez mais sisudo.

15.5.08

O Pagamento Final é um belo filme sobre o submundo novaiorquino dos anos 70. Uma fonte que Hollywood adora beber e que nas mãos de um Scorsese ou um De Palma (como neste caso) rende bons frutos.
O filme é bom por uma série de fatores, como os ângulos inusitados da câmera e os planos-seqüência, que De Palma executa como se regesse uma orquestra.
Mas talvez o que mais goste é o protagonista. Carlito Brigante é um ex-gângster que persegue o sonho de viver como um honesto locador de carros, mas percebe que se livrar do crime não será tão fácil.
Um clichê não fosse o personagem vivido por Al Pacino parecer uma pessoa de carne e osso, quando conta vantagem de sua condição de "Old School", se gabando das boas relações e do status que tivera. Ele não é o fora-da-lei aposentado que se mortifica pelo passado condenável. Ele quer mudar de vida apenas porque se cansou. Quarentão e apaixonado, não quer mais perder tempo na cadeia ou arriscar a pele à toda hora.
Quando em apuros, sentimos que ele não é inatingível. Vemos hesitação, suor e medo. É herói, mas com o cu na mão.

11.4.08

Depois de anos afastado da ficção, Nelson Pereira dos Santos retorna com Brasília 18%. E bem que podia ter permanecido no limbo, já que o filme é uma bela nulidade.
Misturando crítica social e trama policial, o longa não oferece nada que não já tenha sido explorado antes. Pra não sair da capital federal, temos "Doces Poderes", de Lucia Murat, mais ousado e lançado nove anos antes.
Formalmente, o veterano cineasta opta sempre pelo quadro mais convencional. A fotografia está mais pra TV do que pra cinema, o que, somado aos diálogos e atuações teatrais, dá uma sensação de se estar assistindo a um telefilme dos anos 80.
Diretor de 'Vidas Secas', Nelson parece não ter mais o que oferecer. Brasília 18% é um filme perdido em algum lugar entre o Cinema Novo e o cinema realizado hoje por um grupo (cada vez maior) de artistas que entendem o seu tempo e assim tem realizado bons filmes.

*

Eu não estou lembrado de uma performance de uma atriz que tenha me impressionado mais do a de Meryl Streep em As Pontes de Madison. Par de Clint Eastwood (também diretor), não parece que eles tiveram que decorar um texto tamanha a verdade que é passada em cena. < Tá, isso foi clichê, eu sei.
Clint dosa com perfeição a evolução dramática em cada seqüência. Isso significa ver a excitação virar constrangimento; alegria se tornar vergonha e por aí vai. O que não seria tão bem-sucedido com outra atriz, tenho certeza.
O que Eastwood faz no filme é basicamente isso: dirigir Meryl Streep, ter esse timing no controle das emoções e completar a receita com montagem e música adequadas, sem apelar. Esse melodrama que não chega a ser piegas eu já tinha observado em 'Menina de Ouro'. Mas é 'Madison' que se tornou o meu preferido de do diretor, ao lado de 'Os imperdoáveis'.

18.3.08

Lúcia e o sexo é um filmaço. Primeiro, é muito bem escrito e tem uma montagem não-linear inteligente sem deixar de ser clara. O diretor Julio Medem demonstra um rigor impressionante, escolhendo com esmero cada enquadramento, movimento de câmera, marcação de cena. E sem bloquear a espontaneidade do elenco.
O filme ganhou apenas dois Goya, a premiação máxima do cinema espanhol. Música e atriz revelação para Paz Vega.
Até certo ponto, uns dois terços do filme são cenas de sexo. De picante e leve ele se torna um drama pesado em seu último ato. Talvez essa mudança brusca de tom tenha incomodado a alguns. Ou então simplesmente as pessoas prestaram atenção somente à performance de Paz Vega e não perceberam que o filme também era bom...
Eu faço ressalvas apenas à fotografia estourada nas cenas na ilha e à resolução da história. Talvez eu tenha andado numa fase de não gostar de happy ends...

13.3.08

Eu tava achando Elektra assistível até que, ao proteger um casal de quem se tornara amiga, a protagonista pergunta a um ninja-assassino:

- Quem mandou você aqui?
O ninja responde com sarcasmo:
- Você já vai saber...
Então a heroína o mata e o homicida frustrado se evapora (?), transformando-se em fumaça verde (?).

É daí pra pior.

O horror.


Errata: No post anterior onde se lê "Uma pessoa incomum; um personagem incomum.", leia-se "Uma pessoa comum; um personagem incomum."

Vocês nem pra me corrigirem...