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18.9.14

Racismo clássico



No romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, quando desconfia que seu "namorado" Vicente tem um relacionamento com a filha de um de seus subordinados na fazenda, vem à tona todo o racismo da protagonista Conceição, uma postura que macula definitivamente, aos olhos do leitor de hoje, a imagem da heroína generosa, culta, cheia de “ideias”.

“Que julgara ter sido ela quem lhe acordara o interesse arisco e desdenhoso do coração!...
‘Uma cabra, uma cunha à-toa, de cabelo pixaim e dente podre!...” 

(...)

“A avó levantou os olhos:
- Eu já tinha ouvido dizer... Tolice de rapaz!
A moça exaltou-se, torcendo nervosamente os cabelos num coque no alto da cabeça:
- Tolice, não senhora! Então Mãe Nácia acha uma tolice um moço branco andar se sujando com negras?
Dona Inácia sorriu, conciliadora:
- Mas, minha filha, isso acontece com todos... Homem branco, no sertão – sempre saem essas histórias... Além disso não é uma negra; é uma caboclinha clara...” 

Tal reação da personagem serve para ilustrar uma questão que tem sido polêmica nos últimos anos: como lidar com o racismo presente nos clássicos da literatura, em especial os que são distribuídos pelo governo federal nas bibliotecas públicas e entram no currículo da educação básica?

A meu ver, casos como este,ou o de Monteiro Lobato (que era mesmo racista, na vida "civil"), devem ser trabalhados pelo professor em sala de aula, sim, ao invés de serem censurados ou atenuados. É uma oportunidade rica de discutir com os alunos o que mudou (ou não) no comportamento da sociedade desde então. Ignorar o fato pode fortalecer e perpetuar o racismo. Já empurrar para debaixo do tapete, em nome de um “politicamente incorreto” hipócrita, é um crime contra a arte e a História. 



4.5.13

Muitos não sabem, mas o jovem Vinícius de Moraes atuou como crítico de cinema, quando vivia em Los Angeles, meca da sétima arte. Li em algum lugar que era sua (primeira) esposa Tati (oxítona) quem escrevia os textos e o marido assinava. Seja como for, o "poetinha" gostava muito de cinema.

O título de seu Cinepoema não é nem um pouco mentiroso. É poesia e cinema. Extremamente visual, com versos curtos a imitar planos rápidos, cortes secos, o peoma é um filme - com a única diferença que o diretor é você, pois os atores encenam dentro da sua cabeça, ao invés de numa tela.

O poema começa contemplativo e "nada acontece" até a metade da sexta estrofe, quando a calmaria é quebrada e o leitor não sabe direito o que acontece, como num bom suspense, a não ser que se trata de uma tragédia.

Cinepoema é um curtinha mudo e P&B. E por falar nisso, jogando com a polissemia de "preto" e "branco", também é noir.

13.3.12

Tô lendo Agosto, de Rubem Fonseca, e dei uma olhada em trechos da adaptação para a TV (minissérie) que a Globo fez em meados dos anos 90. A série é "fiel" e bem feita, com um ritmo pausado que dificilmente seria aceito hoje em dia. No entanto, ainda deixa muito a desejar em profundidade em relação ao romance. Que é o que normalmente se diz de adaptações de livros para os meios audiovisuais em geral.

Mas parece que Almodóvar consegue superar isso. Não estou falando de adaptações, é que seus filmes lembram livros, no bom sentido (se é que há um mau). É um escritor que filma. Ou alguém duvida que Fale com Ela, por exemplo, não daria um belo livro?

Ele nos proporciona, com imagens, a sensação de que estamos lendo. Ao ver seus filmes não me divirto apenas, penso; não sou entretido, sinto. Ele me emociona sem apelar e sem abrir mão de discussões de altíssimo nível - estéticas (há muita metalinguagem no seu cinema) e filosóficas - Almodóvar consegue ousar passando ao largo de polêmicas; não perde o tom.

Marco, um dos protagonistas de Fale com Ela, sempre chora ao presenciar algo bonito por não poder compartilhar aquele momento com a ex-mulher. Quer algo mais anticlichê para falar de saudade? Almodóvar também escreve diálogos como poucos. E ele não tem pressa, apesar de ser muito lembrado pelo frenesi presente especialmente em seus primeiros filmes. Ele nos transforma em voyeurs de detalhes, como só alguém que gosta  muito de gente é capaz de fazer. Processos rotineiros são mostrados em seus mínimos detalhes e praticamente em tempo real - uma toureira se vestindo, enfermeiros fazendo a higiene da paciente em coma. Como nas descrições dos melhores romances realistas.

12.8.11

Em "O crocodilo" Vinícius prova que um filho é pior que o assustador réptil. Esta última estrofe é perfeita:

O filho é um monstro. E uma vos digo
Ainda por píssico me tomem:
Nunca verei um crocodilo
Chorando lágrimas de homem.

22.8.10

Cidade de Deus II?

400 contra 1 é bom entretenimento, mas têm vários problemas. O elenco é irregular. O roteiro, confuso, e com uma personagem (a da advogada) totalmente dispensável. No fato de só mostrar o lado de uma das facções dos presos da Ilha Grande durante o regime militar eu não vou me meter, já que o longa é baseado no livro autobiográfico do fundador do Comando Vermelho.

Mas só explicando pra quem não viu nem sabe do que se trata, o filme aborda o cotidiano do presídio conhecido como "Caldeirão do Diabo", habitado por pelo menos quatro grupos que se comiam lá dentro e deram origem ao famoso grupo organizado. O núcleo original do Comando era uma espécie de classe média na Ilha Grande. As atividade do bando fora das grades, que ao menos no filme se resumem a sequestros, bem como sua "ética", também são postas em relevo, naquele esquema de roteiro não-linear, como não podia deixar de ser...

As cenas de impacto não têm impacto. A violência chega mais perto de fazer rir do que chocar, como é o caso de uma sequência no fim do filme, protagonizada por um coadjuvante e que inspirou o titulo do filme (e do livro).

Uma montagem infeliz, com planos curtos demais, que não dá respiro entre um assassinato a facadas (antecedido por um estupro) e uma alegre pelada entre os presos. Só pra ficar num exemplo.

Outro filme que aborda o mesmo tema é "Quase dois irmãos", de Lúcia Murat, com personagens fictícios e que faz uma ponte com os dias de hoje, os reflexos da violência não poupando classe social. Luiz Melodia faz uma ponta.


Mudando de pau pra cacete,

o diferencial de Misto Quente, de Bukowski, é ele falar da adolescência com os valores da adolescência, ou seja, valores estúpidos. Se não fosse assim soaria moralista. É preciso coragem pra escrever assim. Não é livro pra menininhas.

14.11.09

O teórico húngaro Ference Fehér é o autor de "O romance está morrendo?".

Não estranhe o título apocalíptico, ele não está sozinho.

Muita gente diz que o romance é um gênero superado, moldado em Cervantes, aprimorado entre as revoluções industriais e esgotado em Joyce e Kafka.

Na minha humilíssima opinião, dizer que o romance já deu o que tinha que dar é tão descabido quanto afirmar que a História acabou junto com o Muro de Berlim.

Porém, eu já acho que o conto envelheceu melhor que seu primo maior. Por mais incensados que sejam os contos de Machado de Assis, Lima Barreto, Poe, etc., eu sinto muito mais prazer nas experiências mais modernas de Cortázar, Rubem Fonseca e vários outros.

Aqueles mestres deram o pontapé inicial, mas o conto progrediu muito e soube, sim, se adaptar melhor que o romance, o qual tem como habitat natural a sociedade burguesa do século XIX (nisso concordam 100% dos críticos). E de fato, eu não conheço nenhum romance recente que sirva pra amarrar os sapatos de Dom Casmurro.

7.11.09




"Felicidade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome." A frase atribuída a Clarice Lispector pode ser vista em perfis de Orkut de um monte de adolescentes e algumas moças mais maduras.

Agora tente imaginar, quantas, entre elas, já pegaram em algum livro de Clarice na vida.

Algumas até tentam. Minha sobrinha, por exemplo, pediu pra eu pegar pra ela algum romance dela na biblioteca. Peguei. E, segundo ela própria, não conseguiu ler nem dez páginas.

Rafaela, assim como todo adolescente, está acostumado com Stephenie Meyer e sua prosa afiada - no que se refere aos dentes dos personagens. Tudo bem, melhor que nada. Mas são livros (imagino) com histórias de amor, bastante ação, e que vão direto ao ponto, sem perder tempo com arrodeios.

Aí a pobre vê a fama que Clarice Lispector tem entre internautas posers e pensa: - opa, isso deve ser bom. Sem imaginar que a autora não é nada fácil. Sua narrativa jamais vai direto ao ponto, e a graça está não nos fatos, mas nos arrodeios. Pra ser mais técnico, nas descrições poéticas. São dezenas de páginas de um delicioso porém assustador rame-rame. Há que ter paciência e, vá lá, algum chão como leitor.

Clarice se tornou cult, em grande parte, justamente por ser difícil. Passar a ideia de que se gosta de uma escritora hermética dá status.

Em tempo: peguei o enjeitado A maçã no escuro e é bom.

15.7.09

Em um clima de romantismo fantástico, o narrador do romance de André Breton percorre as ruas de Paris, como se fosse um mundo prestes a desaparecer, e se encontra com uma misteriosa jovem, Nadja. A certa altura, esta telefona para o narrador, que não está; a pessoa que atende lhe pergunta como ela pode ser encontrada; Nadja responde que ninguém a encontra.

Este é o resumo que se encontra na orelha de Nadja (Ed. Guanabara, 1987), de André Breton. Assim como a maioria das vanguardas do início do século passado, o Surrealismo rendeu mais manifestos do que obras, o que faria com que o romance publicado em 1928 se tornasse famoso pelo simples fato de ser uma obra declaradamente surrealista.

Experimental, o autor se confunde com narrador, faz de amigos seus personagens e o leitor não sabe até onde vai a realidade e começa o devaneio. Ficção e reflexões de cunho ensaístico e existenciais se misturam - psicanálise e fluxo de pensamento estavam na moda.

Um recurso interessante é a ausência intencional de descrições, que, como o autor explica no prefácio à uma reedição do livro de 1964, são substituídas por fotografias. Neste ponto é visível o caráter panfletário da obra, no sentido de que ela exprime uma necessidade das idéias contidas no Manifesto Surrealista de 1924 (redigido pelo próprio Breton) se concretizarem.

Na verborragia e humor afiado desse extenso manifesto, sobra até pra Dostoievski. A seguir, um trecho do livro, onde, ironicamente, Breton descreve Nantes:

Nantes: talvez seja, com Paris, a única cidade da França onde tenho a impressão de que me pode acontecer alguma coisa que valha, onde certos olhares queimam por seu próprio excesso de fogo (voltei a constatá-lo o ano passado, quando atravessava Nantes de automóvel e vi uma mulher, uma operária, creio, acompanhando um homem, e que ergueu para mim uns olhos que tive de parar), onde para mim a cadência da vida não é a mesma que em outros lugares, onde um espírito de aventura além de todas as aventuras habita ainda em certos seres(...)