Tô lendo Agosto, de Rubem Fonseca, e dei uma olhada em trechos da adaptação para a TV (minissérie) que a Globo fez em meados dos anos 90. A série é "fiel" e bem feita, com um ritmo pausado que dificilmente seria aceito hoje em dia. No entanto, ainda deixa muito a desejar em profundidade em relação ao romance. Que é o que normalmente se diz de adaptações de livros para os meios audiovisuais em geral.
Mas parece que Almodóvar consegue superar isso. Não estou falando de adaptações, é que seus filmes lembram livros, no bom sentido (se é que há um mau). É um escritor que filma. Ou alguém duvida que Fale com Ela, por exemplo, não daria um belo livro?
Ele nos proporciona, com imagens, a sensação de que estamos lendo. Ao ver seus filmes não me divirto apenas, penso; não sou entretido, sinto. Ele me emociona sem apelar e sem abrir mão de discussões de altíssimo nível - estéticas (há muita metalinguagem no seu cinema) e filosóficas - Almodóvar consegue ousar passando ao largo de polêmicas; não perde o tom.
Marco, um dos protagonistas de Fale com Ela, sempre chora ao presenciar algo bonito por não poder compartilhar aquele momento com a ex-mulher. Quer algo mais anticlichê para falar de saudade? Almodóvar também escreve diálogos como poucos. E ele não tem pressa, apesar de ser muito lembrado pelo frenesi presente especialmente em seus primeiros filmes. Ele nos transforma em voyeurs de detalhes, como só alguém que gosta muito de gente é capaz de fazer. Processos rotineiros são mostrados em seus mínimos detalhes e praticamente em tempo real - uma toureira se vestindo, enfermeiros fazendo a higiene da paciente em coma. Como nas descrições dos melhores romances realistas.
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13.3.12
13.8.08
Por falar em China...
"Sou humano e nada do que é humano me é estranho", disse alguém. Histórias de vida nos cativam naturalmente. Balzac e a pequena costureira chinesa aborda dois momentos cruciais da história recente da China pela experiência dos protagonistas. Na juventude suas vidas são viradas de ponta-cabeça pela Revolução Cultural de Mao. Já o desenvolvimento acelerado dos últimos anos, metonimicamente mostrado no filme pela construção de uma represa, literalmente põe suas doces lembranças de juventude por água abaixo, junto com tradições e construções milenares e uma paisagem natural exuberante.
O mote da inundação de uma comunidade com o pretexto do progresso é o mesmo de Narradores de Javé, de Eliane Caffé, embora em "Balzac" ele seja secundário.
Dois adolescentes citadinos são obrigados a passarem uma temporada numa montanha remota para se "reeducarem", ou seja, livrarem-se de qualquer ranço pequeno-burguês e se tornarem camponeses esforçados e domesticados. Lavagem cerebral, pra ser mais claro. Mas Ma e Huo dão a sorte de conseguir alguns livros proibidos (romances franceses, Balzac principalmente) e os lêem para a costureirinha do título, o que acaba culminando num triângulo amoroso (sim, é um filme de amor). É impossível não lembrar de Fahrenheit 451.
A costureira é uma menina de personalidade forte, mais esperta do que os rapazes, apesar de nunca ter saído daquela montanha que provavelmente não sofria uma mudança significativa desde a invenção da pólvora. A introdução do mundo das letras em sua vida vai tão-somente confirmar nela sua independência.
O filme denuncia a ingenuidade e a ignorância e o seu aproveitamento pelo Maoísmo, que considerava reacionária a leitura de livros "burgueses". Ironicamente, o contato com Balzac muda de fato a vida da costureira (o nome verdadeiro da personagem não é revelado), o que não será necessariamente uma coisa boa pràqueles que a amam.
Um dos garotos promete ao outro que irá salvar sua nova amiga da ignorância. O que eles não sabiam é que isso libertá-la-ia de qualquer controle. Ela entende que é mais forte do que o Governo, a montanha, a família o amor. Ela vai ganhar o mundo (sim, é um filme feminista).
E não é só a costureira que tem a vida transformada pela dupla. Isolada e cheia de analfabetos, a aldeia incumbe Ma e Huo de lhe contarem as histórias dos filmes que eles conhecem. Assim, à noite formam-se platéias para ouvirem atentamente as narrações, que as levam às lágrimas. Isso confirma a posição de Antonio Candido, exposta em O Direito à Literatura: "A literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as 24 horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. (...) Ela (a criação ficcional ou poética) se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance." Sim, é um filme político.
O mote da inundação de uma comunidade com o pretexto do progresso é o mesmo de Narradores de Javé, de Eliane Caffé, embora em "Balzac" ele seja secundário.
Dois adolescentes citadinos são obrigados a passarem uma temporada numa montanha remota para se "reeducarem", ou seja, livrarem-se de qualquer ranço pequeno-burguês e se tornarem camponeses esforçados e domesticados. Lavagem cerebral, pra ser mais claro. Mas Ma e Huo dão a sorte de conseguir alguns livros proibidos (romances franceses, Balzac principalmente) e os lêem para a costureirinha do título, o que acaba culminando num triângulo amoroso (sim, é um filme de amor). É impossível não lembrar de Fahrenheit 451.
A costureira é uma menina de personalidade forte, mais esperta do que os rapazes, apesar de nunca ter saído daquela montanha que provavelmente não sofria uma mudança significativa desde a invenção da pólvora. A introdução do mundo das letras em sua vida vai tão-somente confirmar nela sua independência.
O filme denuncia a ingenuidade e a ignorância e o seu aproveitamento pelo Maoísmo, que considerava reacionária a leitura de livros "burgueses". Ironicamente, o contato com Balzac muda de fato a vida da costureira (o nome verdadeiro da personagem não é revelado), o que não será necessariamente uma coisa boa pràqueles que a amam.
Um dos garotos promete ao outro que irá salvar sua nova amiga da ignorância. O que eles não sabiam é que isso libertá-la-ia de qualquer controle. Ela entende que é mais forte do que o Governo, a montanha, a família o amor. Ela vai ganhar o mundo (sim, é um filme feminista).
E não é só a costureira que tem a vida transformada pela dupla. Isolada e cheia de analfabetos, a aldeia incumbe Ma e Huo de lhe contarem as histórias dos filmes que eles conhecem. Assim, à noite formam-se platéias para ouvirem atentamente as narrações, que as levam às lágrimas. Isso confirma a posição de Antonio Candido, exposta em O Direito à Literatura: "A literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as 24 horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. (...) Ela (a criação ficcional ou poética) se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance." Sim, é um filme político.
18.3.08
Lúcia e o sexo é um filmaço. Primeiro, é muito bem escrito e tem uma montagem não-linear inteligente sem deixar de ser clara. O diretor Julio Medem demonstra um rigor impressionante, escolhendo com esmero cada enquadramento, movimento de câmera, marcação de cena. E sem bloquear a espontaneidade do elenco.
O filme ganhou apenas dois Goya, a premiação máxima do cinema espanhol. Música e atriz revelação para Paz Vega.
Até certo ponto, uns dois terços do filme são cenas de sexo. De picante e leve ele se torna um drama pesado em seu último ato. Talvez essa mudança brusca de tom tenha incomodado a alguns. Ou então simplesmente as pessoas prestaram atenção somente à performance de Paz Vega e não perceberam que o filme também era bom...
Eu faço ressalvas apenas à fotografia estourada nas cenas na ilha e à resolução da história. Talvez eu tenha andado numa fase de não gostar de happy ends...
O filme ganhou apenas dois Goya, a premiação máxima do cinema espanhol. Música e atriz revelação para Paz Vega.
Até certo ponto, uns dois terços do filme são cenas de sexo. De picante e leve ele se torna um drama pesado em seu último ato. Talvez essa mudança brusca de tom tenha incomodado a alguns. Ou então simplesmente as pessoas prestaram atenção somente à performance de Paz Vega e não perceberam que o filme também era bom...
Eu faço ressalvas apenas à fotografia estourada nas cenas na ilha e à resolução da história. Talvez eu tenha andado numa fase de não gostar de happy ends...
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