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20.4.07

3 razões para não gostar de 300

Um discurso vazio sobre liberdade, um monte de contradições internas e um Rodrag Santoro com voz de Darth Vader e trejeitos de Vera Verão.

17.4.07

"Ação entre amigos" é o melhor policial de Beto Brant, superando "Os matadores" e o badalado “O invasor”.

O filme tem um ritmo impressionante. São 75 minutos sem vontade de piscar. Além de intenso, o roteiro é bem amarrado, conta as histórias dos personagens sem deixar buracos e sem demorar mais do que deve. É mais ou menos o que Jean-Claude Bernardet elogiou no recente cinema argentino e que eu citei num post anterior (e como eu sou bonzinho volto a fazê-lo agora): “Não há necessidade de longas explicações para justificar as ações dos personagens. Breves anotações, como a expressão facial de um personagem, permitem acompanhar fluentemente a ação, compreender, e se emocionar com o quadro afetivo dos personagens e as relações entre eles, sem demora”.

Falando em roteiro, Brant o escreveu, pra variar, junto com Marçal Aquino. Este é o autor do argumento, que conta a história de um ex-militante de esquerda que busca vingança contra seu torturador. O filme tem bem a estrutura policial das parcerias Brant-Aquino e um quê dos justiceiros de faroeste obstinados por vingança. Aliás, a montagem paralela passado-presente empregada no filme é similar a de "Era Uma Vez no Oeste", de Sergio Leone.

Mas nem tudo são qualidades. Os atores que interpretam os personagens nos anos 70 deixam um bocado a desejar. Já os que fazem o quarteto de amigos no presente, só macacos velhos, seguram a onda.

Brant tem uma boa noção de ritmo e faz com a câmera o que quer. Mas ele tropeça na direção de atores e na sintonia com outros aspectos da produção. Talvez seja um pouco de inexperiência, talvez seja grana curta, mas há uma cena no início, por exemplo, que eu classificaria como uma soap opera made in URSS. Trata-se de uma discussão de casal sobre o que seria mais importante: abandonar a causa socialista e constituir família ou insistir na causa revolucionária. Nessa seqüência tudo é muito ruim: atuações, diálogos e até a cenografia.

Mas há uma virada surpreendente no final – tanto na história quanto na qualidade.
Quanto aos outros citados no primeiro parágrafo, "Os Matadores" também tem qualidades. E d'O Invasor eu não gosto de quase nada. Depois dele o cineasta paulista pariu "Crime Delicado" e "Cão sem dono", que passa em Recife daqui a 10 dias, concorrendo no Cine PE.

A crítica em peso festeja o cara. "Invasor" foi considerado o melhor filme da Retomada e foi premiado em Sundance. Segundo o IMDB, Brant é "Considered one of the most talented rising Brazilian directors." Eu não duvido nada de o outro ser Cláudio Assis.

9.4.07

Estrada para Perdição

Como é subestimado esse filme de Sam Mendes! Após os elogios e os Oscars de Beleza Americana, “Estrada” passou quase despercebido. E o engraçado é que mesmo contando com um estreladíssimo elenco, os atores são o de menos.
O filme começa patinando, mas quando você menos espera já não consegue parar de assistir (e olhe que vi o filme às 2h da manhã). Depois volta a patinar mas a seqüência-clímax é de de arrepiar, provando o talento de Mendes. Os atores, apesar de monstros, estão um tanto apagados.
O personagem principal é Michael Sullivan, extremamente bem escrito, o que compensa o fato de Tom Hanks não ser o melhor intérprete para o papel do mafioso “bonzinho”. Já o de Jude Law, assassino contratado para dar cabo do protagonista, fica boiando na história. Paul Newman e Daniel “007” Craig estão um pouco caricatos demais. E o pirralho que faz o filho de Sullivan não tem, digamos, empatia. Mas o roteiro e a excelente direção seguram a onda. Filme de gângster de primeira linha.

6.4.07

Continuando:

Ilha das Flores ganhou o Urso de Prata em Berlim e outras dezenas de prêmios pelo Brasil, França, Estados Unidos.
Mas o que explica tanto interesse por um curta sobre um lixão de Porto Alegre? Além disso, “Ilha” tem elementos datados, como anúncios publicitários da época e referência ao acidente com o Césio 137 em Goiânia. Sem falar nas muitas referências que passam despercebidas para quem é gringo.
Uma palavra explica o sucesso da obra: abordagem. Ou, em português mais claro: roteiro. Furtado se recusou a fazer um documentário convencional. Com a palavra, o diretor: “Acho que o impacto do filme está, em primeiro lugar, em ser baseado em fatos. Ele pega emprestado a força do documentário. Em seguida, na linguagem, na vertigem do texto e das imagens, com estranhas associações que, de certa forma, hipnotizam o espectador. Em terceiro, no humor, que induz o espectador a se aproximar de um assunto que, a princípio, o afastaria. Em quarto, pela aparente banalidade das informações que constroem a complexidade da trama.”
Linguagem, humor, complexidade. O diretor simplesmente rejeitou a idéia de fazer um doc na escola francesa de cinema-verdade ou dentro do “cinema direto” dos americanos. Furtado também teve a felicidade de não fazer um registro panfletário ou sensacionalista. Ainda inventou uma forma de narrar. Nota-se o quase médico no tom pseudocientífico do texto em off e o quase artista plástico nas muitas colagens.
Ilha das flores é o produto de um cineasta questionador, inconformado, renovador. Se por um lado ele projetou seu diretor, por outro, é uma maldição. Jorge Furtado hoje é do mainstream, e mesmo fazendo coisas até interessantes, nunca mais ele chegará sequer perto do brilhantismo de “Ilha”. O conceito de obra-prima anda desgastado, mas em Ilha das Flores ele se enxaixa perfeitamente, no seu sentido original: obra-maior. O resto é o resto.

3.4.07

Revi Ilha das flores várias vezes ultimamente. Não há dúvida: obra-prima. Apropriamento impecável do formato curta-metragem: não é uma piadinha, não é um experimental bicho-grilo, não é um longa comprimido. Uma história contada exatamente no tempo que devia ter: 12 minutos. E provocações pra uma vida inteira. Não é à toa que Jorge Furtado até hoje faz dinheiro com o filme e ainda é reconhecido como “o diretor de Ilha das Flores”, mesmo trabalhando na Globo e tendo realizado longas como Meu tio matou um cara e O homem que copiava.
O curta tinha tudo pas ra passar batido. Se Porto Alegre ainda hoje é uma fronteira incipiente do cinema brazuca, imagine em 89. Furtado era um ilustre desconhecido de 30 anos de idade, que havia largado a medicina e artes plásticas (“fiz vestibular para jornalismo. O curso mais próximo de cinema que existe por aqui”).
“Ilha” é um exemplo bem-sucedido e não-panfletário da filosofia “não sabia que era impossível, foi lá e fez”. Os toscos efeitos de computador se adequam perfeitamente ao filme. Muito melhor do que se fossem utilizados os softwares poderosos de hoje. Muito melhor do que as animações de Allan Sieber para o “O homem que copiava”. A montagem de Giba Assis Brasil é ágil quando precisa ser e tem suas pausas, seus silêncios e suas câmeras-lentas quando a ênfase pede, sem forçar barra. Os efeitos sonoros também são um dos trunfos do filme. A escolha de O Guarani, de Carlos Gomes, se deve não só pelo clima épico que evoca como é também tema do programa oficial A Voz do Brasil. Mais uma sutil sacada de Furtado. O trecho da ópera tocado (apenas por guitarra) no final, associado ao poema de Cecília de Meirelles, narrado por Paulo José, enquanto são mostradas cenas das pessoas no lixo em slow motion, causam um efeito devastador em quem assiste.
Um exemplo que dá uma boa noção da precariedade da produção: “a fábrica de perfumes” mostrada no filme é na verdade o laboratório de um colégio!
Outro dia ouvi dizer que o maior plano do filme tem 15 segundos porque ele foi todo rodado com pontas de negativos doadas pela Kodak. Segundo Luciana Tomasi, produtora executiva, o filme custou o que hoje seria equivalente a 15 mil reais. Quer mais estética da fome do que isso?
É por tudo isso que toda vez que se ouvisse alguém reclamar que não filma porque não tem dinheiro nem padrinho, que é impossível fazer cinema fora do eixo Rio-São Paulo, alguém deveria indagar: “ei, e Ilha das Flores?” E eu nem vou falar nas facilidades que não existiam na época porque aí já seria humilhação.

Continua.

29.3.07

No universo nonsense dos quadrinhos de super-heróis americano, o Motoqueiro Fantasma é sem dúvida uma das criações mais surreais. Um Hell´s Angel no sentido literal.
Um personagem assim tinha tudo para dar um filme cool. E este que aí está o é. Ao menos em parte. Nicolas Cage contribui para isso, quando não se leva a sério; quando não atua. Quando não banca o herói atormentado e apenas se diverte em cena. Mesmo com um penteado esquisito pra disfarçar a calvície, é bom vê-lo em cena.
O problema do filme é simples. Uma produção como essa precisa arrecadar muito dinheiro. E pra se levar gente ao cinema tem-se que recorrer aquela formulazinha batida, de par romântico, de antagonistas odiosos etc. O Diabo é até interessante. Mas a história do tal do “Coração Negro” e seus anjos decaídos, que disputam com o Motoqueiro a posse de um contrato, soa totalmente estranho. Um reles pretexto pra cenas de confronto.
E Eva Mendes, tadinha, tão bonitinha, mas tão fraquinha...

25.3.07

Na nossa mania de bancar o colonizado revoltado, costumamos torcer o nariz para alguns blockbusters dizendo que eles fazem propaganda dos Estados Unidos. Eu senti isso em relação ao A Rainha, só que aqui, claro, a Grã-Bretanha é a exaltada, por meio da serenidade de Elizabeth II, do tino político e do equilíbrio de Tony Blair... Com a imagem arranhada pelo apoio à Guerra do Iraque, esse filme me parece ser isso: uma tentativa de elevar a auto-estima do britânico e melhorar a imagem do país e de seus líderes. Aliás, Stephen Frears titubeia, mas acaba ficando de bem tanto com a monarquia como com o primeiro-ministro. Todo mundo é bonzinho.
Eu imagino que para um britânico o filme tenha bastante apelo. Entendo perfeitamente sua curiosidade pela vida privada da discreta rainha e o desejo de revisitar criticamente o mito Diana. Mas e eu com isso? Pra mim essa história é tão interessante quanto seria para um inglês acompanhar Entreatos, de João Moreira Salles, que trata da campanha presidencial de Lula.
O filme é chato, é? Eu não recomendaria. Mas também não tenho motivos pra dizer que ele é ruim, à parte o fato de o diretor ficar em cima do muro, como já mencionei. Concordo com Inácio Araújo quando ele diz que A Rainha não é um “telefilme”. Aliás, na TV A Rainha seria mais sacal ainda... No mais, a montagem é feliz ao utilizar imagens de arquivo da TV da maneira e nos momentos certos e o elenco dá pro gasto. Helen Mirren de fato está muito bem. E o carinha que faz Tony Blair até convence, pelo menos quando não está tentando se parecer demais com o primeiro-ministro - o esforço que ele faz pra copiar o sorriso de Blair beira o ridículo.

P.S. Uma coisa que não vi ninguém mencionar é que o fotógrafo do filme é o brasileiro Affonso Beato, que já trabalhou com Almodóvar e com Walter Salles em Alma Negra.