O Pagamento Final é um belo filme sobre o submundo novaiorquino dos anos 70. Uma fonte que Hollywood adora beber e que nas mãos de um Scorsese ou um De Palma (como neste caso) rende bons frutos.
O filme é bom por uma série de fatores, como os ângulos inusitados da câmera e os planos-seqüência, que De Palma executa como se regesse uma orquestra.
Mas talvez o que mais goste é o protagonista. Carlito Brigante é um ex-gângster que persegue o sonho de viver como um honesto locador de carros, mas percebe que se livrar do crime não será tão fácil.
Um clichê não fosse o personagem vivido por Al Pacino parecer uma pessoa de carne e osso, quando conta vantagem de sua condição de "Old School", se gabando das boas relações e do status que tivera. Ele não é o fora-da-lei aposentado que se mortifica pelo passado condenável. Ele quer mudar de vida apenas porque se cansou. Quarentão e apaixonado, não quer mais perder tempo na cadeia ou arriscar a pele à toda hora.
Quando em apuros, sentimos que ele não é inatingível. Vemos hesitação, suor e medo. É herói, mas com o cu na mão.
15.5.08
11.4.08
Depois de anos afastado da ficção, Nelson Pereira dos Santos retorna com Brasília 18%. E bem que podia ter permanecido no limbo, já que o filme é uma bela nulidade.
Misturando crítica social e trama policial, o longa não oferece nada que não já tenha sido explorado antes. Pra não sair da capital federal, temos "Doces Poderes", de Lucia Murat, mais ousado e lançado nove anos antes.
Formalmente, o veterano cineasta opta sempre pelo quadro mais convencional. A fotografia está mais pra TV do que pra cinema, o que, somado aos diálogos e atuações teatrais, dá uma sensação de se estar assistindo a um telefilme dos anos 80.
Diretor de 'Vidas Secas', Nelson parece não ter mais o que oferecer. Brasília 18% é um filme perdido em algum lugar entre o Cinema Novo e o cinema realizado hoje por um grupo (cada vez maior) de artistas que entendem o seu tempo e assim tem realizado bons filmes.
*
Eu não estou lembrado de uma performance de uma atriz que tenha me impressionado mais do a de Meryl Streep em As Pontes de Madison. Par de Clint Eastwood (também diretor), não parece que eles tiveram que decorar um texto tamanha a verdade que é passada em cena. < Tá, isso foi clichê, eu sei.
Clint dosa com perfeição a evolução dramática em cada seqüência. Isso significa ver a excitação virar constrangimento; alegria se tornar vergonha e por aí vai. O que não seria tão bem-sucedido com outra atriz, tenho certeza.
O que Eastwood faz no filme é basicamente isso: dirigir Meryl Streep, ter esse timing no controle das emoções e completar a receita com montagem e música adequadas, sem apelar. Esse melodrama que não chega a ser piegas eu já tinha observado em 'Menina de Ouro'. Mas é 'Madison' que se tornou o meu preferido de do diretor, ao lado de 'Os imperdoáveis'.
Misturando crítica social e trama policial, o longa não oferece nada que não já tenha sido explorado antes. Pra não sair da capital federal, temos "Doces Poderes", de Lucia Murat, mais ousado e lançado nove anos antes.
Formalmente, o veterano cineasta opta sempre pelo quadro mais convencional. A fotografia está mais pra TV do que pra cinema, o que, somado aos diálogos e atuações teatrais, dá uma sensação de se estar assistindo a um telefilme dos anos 80.
Diretor de 'Vidas Secas', Nelson parece não ter mais o que oferecer. Brasília 18% é um filme perdido em algum lugar entre o Cinema Novo e o cinema realizado hoje por um grupo (cada vez maior) de artistas que entendem o seu tempo e assim tem realizado bons filmes.
*
Eu não estou lembrado de uma performance de uma atriz que tenha me impressionado mais do a de Meryl Streep em As Pontes de Madison. Par de Clint Eastwood (também diretor), não parece que eles tiveram que decorar um texto tamanha a verdade que é passada em cena. < Tá, isso foi clichê, eu sei.
Clint dosa com perfeição a evolução dramática em cada seqüência. Isso significa ver a excitação virar constrangimento; alegria se tornar vergonha e por aí vai. O que não seria tão bem-sucedido com outra atriz, tenho certeza.
O que Eastwood faz no filme é basicamente isso: dirigir Meryl Streep, ter esse timing no controle das emoções e completar a receita com montagem e música adequadas, sem apelar. Esse melodrama que não chega a ser piegas eu já tinha observado em 'Menina de Ouro'. Mas é 'Madison' que se tornou o meu preferido de do diretor, ao lado de 'Os imperdoáveis'.
9.4.08
Tirando do sério
Não vou me demorar recomendando o CQC – Custe o Que Custar, que estreou há algumas semanas na Band, até porque o projeto, encabeçado por Marcelo "Ernesto Varela" Tas caiu na boca do povo, rendeu alguns hits no YouTube e até elogiado na Veja...
Só digo que o programa é bom e que vocês deveriam assistir, pelo menos uma vez. Passa nas segundas (espertamente começa assim que acaba a novela das 8 - da Globo) e rola um compacto às quartas, após o futebol.
No programa desta semana comecei a perceber os primeiros problemas, um pouco pela produção já demonstrar falta de fôlego e também pelo fato de a edição gaiata e frenética não me hipnotizar mais com a mesma eficácia.
A forma e o método de abordar dos repórteres-humoristas, além da já citada edição, fazem o telespectador menos atento não reparar na fragilidade da tese que eles queiram defender.
Nesta última edição, um deles acompanhou Silvio Pereira no que deveria ser um dia de trabalho comunitário a ser prestado pelo ex-secretário do PT, aquele que ganhou um jipe importado. A "matéria", analisando friamente, consistiu em mostrar o repórter seguindo o cara de carro e a sua determinação em presenteá-lo com um jipe de brinquedo. Não há como saber com certeza se a pena foi cumprida ou se foi mesmo burlada, como a edição deu a entender.
Quando é menos despretensioso, a atração rende momentos absurdamente engraçados. Assim como o Pânico, eles extraem situações cômicas botando celebridades em situações inesperadas e algumas vezes constrangedoras. Pra mim o melhor quadro é o "Repórter inexperiente", em que o sujeito se passa por um jornalista de TV do interior, em início de carreira, testando a paciência dos entrevistados famosos, que vão de Gretchen a Roberto Cabrini, passando por Padre Marcelo.
CQC é ainda prestação de serviço. Denuncia e cobra solução para os problemas nos serviços públicos. Cabe à audiência julgar se isso vai resultar em melhorias na prática ou se não passa de um artifício sensacionalista.
O programa é inovador, ágil e conta com um elenco na média talentoso, sem dúvida. Entretém e faz rir. É bem mais do que se poderia esperar da Band. Mas aquilo não pode (ou pelo menos não deveria) ser considerado jornalismo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Só digo que o programa é bom e que vocês deveriam assistir, pelo menos uma vez. Passa nas segundas (espertamente começa assim que acaba a novela das 8 - da Globo) e rola um compacto às quartas, após o futebol.
No programa desta semana comecei a perceber os primeiros problemas, um pouco pela produção já demonstrar falta de fôlego e também pelo fato de a edição gaiata e frenética não me hipnotizar mais com a mesma eficácia.
A forma e o método de abordar dos repórteres-humoristas, além da já citada edição, fazem o telespectador menos atento não reparar na fragilidade da tese que eles queiram defender.
Nesta última edição, um deles acompanhou Silvio Pereira no que deveria ser um dia de trabalho comunitário a ser prestado pelo ex-secretário do PT, aquele que ganhou um jipe importado. A "matéria", analisando friamente, consistiu em mostrar o repórter seguindo o cara de carro e a sua determinação em presenteá-lo com um jipe de brinquedo. Não há como saber com certeza se a pena foi cumprida ou se foi mesmo burlada, como a edição deu a entender.
Quando é menos despretensioso, a atração rende momentos absurdamente engraçados. Assim como o Pânico, eles extraem situações cômicas botando celebridades em situações inesperadas e algumas vezes constrangedoras. Pra mim o melhor quadro é o "Repórter inexperiente", em que o sujeito se passa por um jornalista de TV do interior, em início de carreira, testando a paciência dos entrevistados famosos, que vão de Gretchen a Roberto Cabrini, passando por Padre Marcelo.
CQC é ainda prestação de serviço. Denuncia e cobra solução para os problemas nos serviços públicos. Cabe à audiência julgar se isso vai resultar em melhorias na prática ou se não passa de um artifício sensacionalista.
O programa é inovador, ágil e conta com um elenco na média talentoso, sem dúvida. Entretém e faz rir. É bem mais do que se poderia esperar da Band. Mas aquilo não pode (ou pelo menos não deveria) ser considerado jornalismo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
18.3.08
Lúcia e o sexo é um filmaço. Primeiro, é muito bem escrito e tem uma montagem não-linear inteligente sem deixar de ser clara. O diretor Julio Medem demonstra um rigor impressionante, escolhendo com esmero cada enquadramento, movimento de câmera, marcação de cena. E sem bloquear a espontaneidade do elenco.
O filme ganhou apenas dois Goya, a premiação máxima do cinema espanhol. Música e atriz revelação para Paz Vega.
Até certo ponto, uns dois terços do filme são cenas de sexo. De picante e leve ele se torna um drama pesado em seu último ato. Talvez essa mudança brusca de tom tenha incomodado a alguns. Ou então simplesmente as pessoas prestaram atenção somente à performance de Paz Vega e não perceberam que o filme também era bom...
Eu faço ressalvas apenas à fotografia estourada nas cenas na ilha e à resolução da história. Talvez eu tenha andado numa fase de não gostar de happy ends...
O filme ganhou apenas dois Goya, a premiação máxima do cinema espanhol. Música e atriz revelação para Paz Vega.
Até certo ponto, uns dois terços do filme são cenas de sexo. De picante e leve ele se torna um drama pesado em seu último ato. Talvez essa mudança brusca de tom tenha incomodado a alguns. Ou então simplesmente as pessoas prestaram atenção somente à performance de Paz Vega e não perceberam que o filme também era bom...
Eu faço ressalvas apenas à fotografia estourada nas cenas na ilha e à resolução da história. Talvez eu tenha andado numa fase de não gostar de happy ends...
13.3.08
Eu tava achando Elektra assistível até que, ao proteger um casal de quem se tornara amiga, a protagonista pergunta a um ninja-assassino:
- Quem mandou você aqui?
O ninja responde com sarcasmo:
- Você já vai saber...
Então a heroína o mata e o homicida frustrado se evapora (?), transformando-se em fumaça verde (?).
É daí pra pior.
O horror.
Errata: No post anterior onde se lê "Uma pessoa incomum; um personagem incomum.", leia-se "Uma pessoa comum; um personagem incomum."
Vocês nem pra me corrigirem...
- Quem mandou você aqui?
O ninja responde com sarcasmo:
- Você já vai saber...
Então a heroína o mata e o homicida frustrado se evapora (?), transformando-se em fumaça verde (?).
É daí pra pior.
O horror.
Errata: No post anterior onde se lê "Uma pessoa incomum; um personagem incomum.", leia-se "Uma pessoa comum; um personagem incomum."
Vocês nem pra me corrigirem...
21.2.08
Pessimismo necessário
Uma bela surpresa A Casa de Alice. Eu nunca tinha ouvido falar do filme quando vi que ele tinha entrado em cartaz. Elenco desconhecido, diretor mais ainda. Comprei o ingresso ciente de que poderia esperar qualquer coisa. E podem acreditar que foram quatro reais bem gastos.
Logo de cara a boa impressão causada pelo fato de a protagonista ser uma dona-de-casa quarentona, mãe de três filhos, moradora de São Paulo, manicure. Uma pessoa incomum; um personagem incomum.
Alice é o centro de uma família que se esforça para manter a pose de que tudo vai bem. "Lá em casa não tem problema nem de grana nem de cama", ela diz a uma cliente. A harmonia é só aparente. A sujeira pode ser empurrada pra debaixo do tapete, mas ela existe e todos sabem disso.
À menor crise, todos jogam na cara uns dos outros os seus "podres". E todos têm teto de vidro. Ou melhor, o filme poupa a avó e o filho mais novo. Como se quisesse focar o seu pessimismo na atual geração, isentando a anterior e demonstrando esperança no futuro. Ainda dá pra salvar a próxima geração. Porque a atual...
Chico Teixeira acredita que os problemas do país vão além da guerra entre polícia e traficante, da criminalidade, da violência urbana - como os meios de comunicação (cinema inclusive) fazem parecer.
Na TV temos o seriado 'A grande família', metonímia dos lares brasileiros, em que apesar do que há de errado no país, no fim tudo é contornado e todos ficam felizes graças à cordialidade e à solidez da instituição familiar. 'A Casa de Alice' é o Lado B dessa história. A base da sociedade é também a base da problemática social urbana.
A ingratidão, as mentiras, os pequenos furtos nascem e crescem livres no seio de um lar dilacerado e daí vai pra sociedade. Mas é somente quando sai de casa que o problema é mostrado na TV e surge a falsa impressão de que o problema é superficial, podendo ser resolvido com, digamos, pena de morte e redução da maioridade penal.
Eis a mensagem de 'A Casa de Alice': o pior do Brasil é o brasileiro.
Logo de cara a boa impressão causada pelo fato de a protagonista ser uma dona-de-casa quarentona, mãe de três filhos, moradora de São Paulo, manicure. Uma pessoa incomum; um personagem incomum.
Alice é o centro de uma família que se esforça para manter a pose de que tudo vai bem. "Lá em casa não tem problema nem de grana nem de cama", ela diz a uma cliente. A harmonia é só aparente. A sujeira pode ser empurrada pra debaixo do tapete, mas ela existe e todos sabem disso.
À menor crise, todos jogam na cara uns dos outros os seus "podres". E todos têm teto de vidro. Ou melhor, o filme poupa a avó e o filho mais novo. Como se quisesse focar o seu pessimismo na atual geração, isentando a anterior e demonstrando esperança no futuro. Ainda dá pra salvar a próxima geração. Porque a atual...
Chico Teixeira acredita que os problemas do país vão além da guerra entre polícia e traficante, da criminalidade, da violência urbana - como os meios de comunicação (cinema inclusive) fazem parecer.
Na TV temos o seriado 'A grande família', metonímia dos lares brasileiros, em que apesar do que há de errado no país, no fim tudo é contornado e todos ficam felizes graças à cordialidade e à solidez da instituição familiar. 'A Casa de Alice' é o Lado B dessa história. A base da sociedade é também a base da problemática social urbana.
A ingratidão, as mentiras, os pequenos furtos nascem e crescem livres no seio de um lar dilacerado e daí vai pra sociedade. Mas é somente quando sai de casa que o problema é mostrado na TV e surge a falsa impressão de que o problema é superficial, podendo ser resolvido com, digamos, pena de morte e redução da maioridade penal.
Eis a mensagem de 'A Casa de Alice': o pior do Brasil é o brasileiro.
8.2.08
Para corações de manteiga
Aviso: Spoiler
A sensação que tive de Juno é que ele não cumpre o promete. Quando você nota um esforço pra mostrar um casal de adolescentes que não é um jogador de futebol e uma líder de torcida ou um nerd e uma patricinha, dois personagens que parecem pessoas e não arquétipos, cria-se a expectativa de uma resolução que não seja tão careta...
Abordar o tema da gravidez precoce dá uma mera ilusão de transgressão. Juno, a protagonista, passa a se envolver com o pai adotivo de seu futuro bebê, o que não passa de um artifício pro espectador ficar esperando que role algo a mais. O que seria natural, já que Mark está deixando a esposa, tem gostos em comum com Juno e mostra interesse por ela. Já Paulie (mau personagem, bom ator), o pai do bebê, é tímido, quase idiota, nada atraente e que em nenhum momento é mostrado como um bom partido - o que só reforça a expectativa que a moça irá ficar com Mark.
No final, Juno faz uma pergunta deveras original ao seu pai: - É possível ficar com a mesma pessoa pela vida toda?
A resposta é melhor ainda: - Filha, você deve ficar com quem gosta de você do jeito que você é.
E de repente ela descobre que Paulie, que, o mesmo que passa o dia correndo e comendo tic-tac de laranja, e que ainda lhe dera um fora, é o homem de sua vida.
É como se o filme tivesse um final qualquer menos cor de rosa, mas aí alguém cochichou: - ei, mude isso aí que eu lhe consigo uma indicação ao Oscar. Uma adolescente de 16 anos ficar com um cara com o dobra da idade seria revolucionário demais.
Assinar:
Postagens (Atom)