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21.7.07

Pra não deixar o blog morrer de inanição, duas palavrinhas abalizadas de Braulio Tavares sobre ilusão e verossimilhança:

"O cinema é o ponto perfeito da ilusão. Se fosse menos bem-feito, ninguém seria convencido a acreditar. Se fosse mais bem-feito do que é, ficaria tão parecido com o Real que começaríamos e bocejar e bateríamos em retirada. Do jeito que existe até hoje, ele se mantém tremeluzindo no espaço como uma película translúcida por onde perpassa um mundo maior, mais vivo e mais carregado de energia vital do que o nosso. E para fazer brotar esse Mundo De Lá o mundo de cá não mede esforços."

"A ilusão cinematográfica é uma película tênue como bolha de sabão. A menor inverossimilhança pode fazê-la espoucar para sempre, e puxar o espectador, como um elástico super-esticado, de volta para a poltrona, num repelão brusco que parte a sua fantasia em milhões de fragmentos."

25.5.07

O avanço da pirataria

A partir de hoje, 15 das 17 salas de João Pessoa estarão ocupadas por Homem-Aranha (6) e Piratas do Caribe (9).

15.5.07

“Los documentales más importantes, como sucede también en el cine de ficción, requiren una historia de certa calidad, com personajes interesantes, tensión narrativa y un ponto de vista integrado” (Michael Rabiger, Dirección de documentales)

O que difere a linguagem do documentário de cinema do documentário televisivo é questão das mais delicadas e polêmicas. Em geral observa-se o caráter autoral dos documentaristas-cineastas. Eduardo Coutinho, por exemplo, gosta de deixar as perguntas aparecerem no filme, além de mostrar as câmeras e como se deu o processo das entrevistas.
Paulo Sacramento, em “O prisioneiro da grade de ferro” entregou a câmera aos detentos do Carandiru para que eles próprios registrassem a si e a seus pares. Depois disso, todo mundo saiu copiando a idéia.
Já o documentário televisivo tende a ser limpo, objetivo, sem “estilo”.

Nesse Cineport eu pude ver dois documentários bem representativos no que se refere à abordagem. “Cartola”, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, é fruto basicamente de pesquisa e montagem. As entrevistas feitas para o filme e os depoimentos de Cartola selecionados são vassalos do senhor Roteiro.
O pulo-do-gato da produção é que os diretores não se limitaram a ir atrás de imagens de arquivo apenas do homenageado. Há cenas de cinejornais ou televisão mostrando eventos marcantes da história brasileira e mundial recente, como a segunda guerra e a ditadura militar e, o que eu acho a grande sacada do filme, trechos de filmes nacionais ilustrando fatos da vida de Cartola. Tem de Oscarito a Júlio Bressane, passando por Carmem Miranda. O filme é um casamento da música brasileira com o cinema brasileiro. E com final feliz.

“O Senhor do Castelo”, dirigido e montado por Marcus Vilar, é coerente com a obra do cineasta: muita correção e pouca ousadia. O filme passa por todas as fases e obras significativas do escritor, pontuadas por entrevistas e trechos das famosas "aulas-espetáculo", colhidos ao longo dos últimos 15 anos.
“O Senhor do Castelo” é um caso raro de documentário de longa-metragem onde praticamente apenas uma pessoa é entrevistada. Sendo assim, Marcus evita polêmicas ao deixar que o espectador conheça apenas a visão de Ariano sobre os controvertidos eventos da Revolução de 30, que vitimou o pai do escritor, e a respeito das suas posições em defesa da “verdadeira cultura brasileira”, consideradas xenófobas por alguns.
Vilar evita até mesmo chamar a capital de João Pessoa, nos créditos. O título do documentário é bem significativo. Ariano é o senhor do filme.
“O senhor do castelo” é uma espécie de cinebiografia autorizada. O que, vejam bem, não significa que não seja interessante de ver (e ouvir). Esse paraibano octogenário é um personagem interessantíssimo, revelando, inclusive, um senso de humor surpreendente.

24.4.07

Há alguns dias assisti no Curta Brasil "O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filme", um vídeo de qualidades tão grandes quanto o nome.
Primeiro chama atenção a estética. O Filme tem um breve prólogo, com uma mini dv simulando uma câmera de segurança, e todo o resto é filmado com a câmera de um celular, que seria de um dos assaltantes que é incumbido pelo líder do grupo de registrar a ação. Trata-se de um recurso curioso de um ator acumular a função de cameraman. Vale destacar ainda que todo o assalto é filmado em um único plano-seqüência que dura vários minutos - do contrário soaria fake e o filme não funcionaria.
No elenco, Leandro Firmino (o Zé Pequeno de CDD) e Natália Lage, interpretando eles mesmos. O inusitado de ver "Zé Pequeno" acuado, na posição de vítima, é um acerto a mais da produção. Os atores que fazem os bandidos são do grupo "Nós do Cinema", o que é garantia de excelentes atuações. A cada dia esse grupo me encanta mais.
A direção e o roteiro são de Paulo Silva, Júlio Pecly e Marcelo Yuka, o inquieto ex-baterista do Rappa que ficou paraplégico e tal. "O Filme do Filme Roubado do Roubo da Loja de Filme" é apresentado como "o primeiro curta do movimento Companhia Brasileira de Cinema Barato". Esse é o único detalhe que me causa estranheza. Que mania é essa de manifesto, de revolução? Parece que o Dogma continua a gerar descendentes.
Bem, só sei que o curta, pretensioso ou não, é forte candidato a cult.

20.4.07

3 razões para não gostar de 300

Um discurso vazio sobre liberdade, um monte de contradições internas e um Rodrag Santoro com voz de Darth Vader e trejeitos de Vera Verão.

17.4.07

"Ação entre amigos" é o melhor policial de Beto Brant, superando "Os matadores" e o badalado “O invasor”.

O filme tem um ritmo impressionante. São 75 minutos sem vontade de piscar. Além de intenso, o roteiro é bem amarrado, conta as histórias dos personagens sem deixar buracos e sem demorar mais do que deve. É mais ou menos o que Jean-Claude Bernardet elogiou no recente cinema argentino e que eu citei num post anterior (e como eu sou bonzinho volto a fazê-lo agora): “Não há necessidade de longas explicações para justificar as ações dos personagens. Breves anotações, como a expressão facial de um personagem, permitem acompanhar fluentemente a ação, compreender, e se emocionar com o quadro afetivo dos personagens e as relações entre eles, sem demora”.

Falando em roteiro, Brant o escreveu, pra variar, junto com Marçal Aquino. Este é o autor do argumento, que conta a história de um ex-militante de esquerda que busca vingança contra seu torturador. O filme tem bem a estrutura policial das parcerias Brant-Aquino e um quê dos justiceiros de faroeste obstinados por vingança. Aliás, a montagem paralela passado-presente empregada no filme é similar a de "Era Uma Vez no Oeste", de Sergio Leone.

Mas nem tudo são qualidades. Os atores que interpretam os personagens nos anos 70 deixam um bocado a desejar. Já os que fazem o quarteto de amigos no presente, só macacos velhos, seguram a onda.

Brant tem uma boa noção de ritmo e faz com a câmera o que quer. Mas ele tropeça na direção de atores e na sintonia com outros aspectos da produção. Talvez seja um pouco de inexperiência, talvez seja grana curta, mas há uma cena no início, por exemplo, que eu classificaria como uma soap opera made in URSS. Trata-se de uma discussão de casal sobre o que seria mais importante: abandonar a causa socialista e constituir família ou insistir na causa revolucionária. Nessa seqüência tudo é muito ruim: atuações, diálogos e até a cenografia.

Mas há uma virada surpreendente no final – tanto na história quanto na qualidade.
Quanto aos outros citados no primeiro parágrafo, "Os Matadores" também tem qualidades. E d'O Invasor eu não gosto de quase nada. Depois dele o cineasta paulista pariu "Crime Delicado" e "Cão sem dono", que passa em Recife daqui a 10 dias, concorrendo no Cine PE.

A crítica em peso festeja o cara. "Invasor" foi considerado o melhor filme da Retomada e foi premiado em Sundance. Segundo o IMDB, Brant é "Considered one of the most talented rising Brazilian directors." Eu não duvido nada de o outro ser Cláudio Assis.

9.4.07

Estrada para Perdição

Como é subestimado esse filme de Sam Mendes! Após os elogios e os Oscars de Beleza Americana, “Estrada” passou quase despercebido. E o engraçado é que mesmo contando com um estreladíssimo elenco, os atores são o de menos.
O filme começa patinando, mas quando você menos espera já não consegue parar de assistir (e olhe que vi o filme às 2h da manhã). Depois volta a patinar mas a seqüência-clímax é de de arrepiar, provando o talento de Mendes. Os atores, apesar de monstros, estão um tanto apagados.
O personagem principal é Michael Sullivan, extremamente bem escrito, o que compensa o fato de Tom Hanks não ser o melhor intérprete para o papel do mafioso “bonzinho”. Já o de Jude Law, assassino contratado para dar cabo do protagonista, fica boiando na história. Paul Newman e Daniel “007” Craig estão um pouco caricatos demais. E o pirralho que faz o filho de Sullivan não tem, digamos, empatia. Mas o roteiro e a excelente direção seguram a onda. Filme de gângster de primeira linha.