Mocidade, talento e belleza...
LILLIAN Roth, que hoje, depois de "Alvorada de Amor", todo mundo conhece, é uma das mais futurosas novatas do cinema falado... Ella começou, como tantas outras, fazendo uns números ligeiros, alguns "shorts" graciosos de dansa e canto. E esses primeiros passos abriram-lhe a estrada ampla da popularidade cinematographica, deram-lhe um nome bem depressa havia de andar na bocca de todos os conhecedores do cinema, cercado da mais viva admiração.
Lillian era já uma artistasinha de accentuados pendores, quando começou a apparecer em films, mas dahi para o papel que hoje representa na tela vae um verdadeiro abysmo, abysmo que ella vadeou com a sua graça, o seu talento, a sua mocidade admiráveis. Convém porém notar que a graciosa artista, além desses predicados de bem falar, bem dansar e bem cantar, possue ainda umas covinhas graciosíssimas, pouco acima das comissuras dos lábios, covinhas que têm sido a tentação de muita gente e que, para ella, foi um factor decisivo no caminho do triumpho, por incrível que pareça. E não ha espectador, por mais blassé que seja, que em vendo aquellas covinhas de Lillian não morra do desejo de se sepultar ali dentro um beijinho de amor...
Não pense o leitor que somos agentes de publicidade das covinhas de Lilian. Não, nada disso. É que também nós, que somos humanos e que vemos cinema, não pudemos fugir á attracção formidável daquelles adornos maravilhosos. Lillian Roth é muito jovem: tem apenas dezenove annos. Está no cinema por amor á arte, porque sempre desejou apparecer na tela e alimenta grandes esperanças de chegar um dia a ser uma figura famosa. Não se preoccupa muito com a idéa de casar. Diz que casará um dia, sem duvida alguma, se continuar a ser bonita como é agora e também se chegar a fazer fortuna. Com os dois elementos "belleza" e "dinheiro", tem certeza de que poderá um. dia escolher um noivo como bem lhe convier. Só não diz é como lhe convém o tal noivo...
Lillian teve em "Alvorada do Amor", aquelle grande film de Chevallier, o seu primeiro trabalho em film de grande metragem. Fazia ella a criadinha da rainha e teve como companheiro, nos seus bailados excêntricos, Lupino Lane, o famoso comico. E esse primeiro trabalho deu-lhe nome. A sua graça, a sua maneira de trabalhar, os seus dotes naturaes, a sua brejeirice e a sua agilidade, influiram decisivamente no espírito dos directores e também do publico, apontando-lhes logo a porta estreita da carreira no cinema. Tanto assim foi que, logo após, ella era chamada, pela Paramount para desempenhar papel importantissimo em “O Rei Vagabundo” e solicitada, por empréstimo, pela Metro Goldwyn Mayer, para apparecer em "Madame Satanaz", film que De Mille está dirigindo para aquella empreza.
Isto quer dizer que, dentro de muito pouco tempo, Lillian Roth será uma das estrellas da tela, uma das favoritas do publico. Isso ella deverá ao seu talento, é certo e também ás taes covinhas da face, aquellas covinhas que fazem a gente ter saudades de Dorothy Dalton, outra grande estrella que também tinha covinhas e que também era morena, como Lillian...
* *
Com meias ou sem meias?
"As pernas são por certo uma linda peça da anatomia feminina —mas com meias! Sem meias, não, pois são ellas que realçam a belleza das pernas! Perna sem meia, não tem belleza!"
Eis a opinião de Lawrence Schwab, um notavel productor de comedias e romances musicaes, que não hesita em proclamar que uma perna, no lindo estojo que a meia lhe offerece, é incomparavelmente mais attraente do que nua!
Tanto assim pensa elle que em todas as suas producções — "Follow Thru", "Queen High", "The New Mono", "The Desert Song" e "Good News" — elle sempre fez questão de que as "girls" não dispensassem as meias. As pernas nuas só foram permittidas, e isso mesmo sob protesto de Schwab, nas scenas em que se usavam costumes de sport.
"A meia offerece á perna um desenho nítido e distincto, revelando vantajosamente a forma e as curvas; na perna nua apagasse o desenho" — diz Schwab. "A maciez, o brilho da meia de seda, emprestam á perna rotundidade e contorno. Uma perna nua parece chata. A meia colhe da luz reflexos que arredondam a perna e lhe offerecem relevo. Um jarrete elegante acusa muito melhor a sua esbeltez quando coberto pela meia do que quando se mostra nu. Além disso, ás vezes ha na perna manchas que nenhum artificio, que nenhuma quantidade de pó consegue dissimular. As pernas queimadas do sol traduzem saúde, mas não dão impressão de belleza igual á que dá a perna, bem cingida na meia."
"Para prova suprema, basta mandar que uma linda moça mostre uma perna nua, e a outra velada pela meia. O contraste aponta immediatamente qual das duas pernas apparece mais attraente. A tal ponto assim é que, mesmo quando se pretenda o effeito de pernas tostadas pelo sol, é sempre preferível empregar meias com a cor de carne adequada".
Como se vê, Schwab disse as coisas claras, não esteve com meias... medidas!
Como se vê, a "crítica" de cinema no Brasil de meados do século passado estava atenta às covinhas de uma estrela ou da polêmica em torno de as atrizes usarem ou não meias em cena...
A coluna acima foi publicada na revista o Cruzeiro, em 2 de agosto de 1930, disputando a atenção dos leitores com a notícia da morte de João Pessoa.
2.1.08
28.12.07
Vi, enfim, Tropa de Elite. Do espinhoso debate moral, opto por me esquivar. Como obra de arte, achei superestimado. A estrutura narrativa lembra DEMAIS Cidade de Deus, embora a fórmula não se mostre tão bem sucedida. O filme tem problemas de roteiro e direção, inclusive de atores. Raros são os momentos que o diretor consegue extrair espontaneidade do elenco. Um deles é a cena em que o capitão Nascimento está reunido com seus colegas analisando os inscritos para o treinamento. No mais, há muito esquematismo. Quando começa a tocar aquela cuíca você já percebe que um policial vai fazer alguma falcatrua. Padilha e sua equipe entendem que para o espectador acreditar que um PM é corrupto ele tem que ter pinta de malandro, malemolência e estar sempre comendo.
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22.12.07
Comece por aqui
Obra de crítico da Folha voltada para público leigo estimula uma atitude reflexiva diante do que se vê na telona
Cada livro da coleção História em Aberto analisa um grande acontecimento histórico, como a Revolta da Vacina, a Semana de 22 ou os Grandes Descobrimentos. A editora Scipione resolveu colocar a sétima arte nessa história e daí surgiu "Cinema – O Mundo em Movimento", de Inácio Araújo.
O autor opta por não fazer uma "história do cinema", narrando suas transformações numa ordem cronológica. Em vez disso, explica o que é roteiro, decupagem, montagem, continuidade, direção, direção de fotografia, enfim, todos os elementos que compõem um filme.
Entretanto, ele tece breves apontamentos sobre os principais movimentos e escolas que marcaram a trajetória do cinema no mundo, e que fizeram da despretensiosa invenção dos irmãos Lumière um meio massivo de comunicação, com alto grau de refinamento. Para auxiliar a leitura, há ilustrações, citações, exemplos e trechos de outros livros sobre o tema.
Enquanto crítico, Inácio Araújo faz questão de apontar os fatores que fizeram de alguns cineastas figuras imortais. Alfred Hitchcock, por exemplo, teve o mérito de se apossar com maestria da chegada do som ao cinema, enquanto alguns grandes estúdios ainda torciam o nariz para a novidade.
A linguagem é simples e didática, apropriada para o público-alvo da coleção – os jovens. Cinema – O Mundo em Movimento é ideal para quem quer começar a ver o cinema "por dentro", como explica o autor no seguinte trecho:
Se não temos idéia de quantas vezes um diretor coça a cabeça em busca da melhor solução, ou antes de escolher um cenário, de achar a maneira como vai distribuir os atores em cena ou achar a posição de câmera mais conveniente para o desenvolvimento da ação, dificilmente conseguiremos captar o trabalho que temos diante de nós (e que tantas vezes parece tão simples de obter). Diremos 'gosto' ou 'não gosto' - mas sem entendermos o que realmente foi feito e o que o filme está tentando nos mostrar. Não saberemos sequer se foi bem-feito ou não.
ARAUJO, Inácio. Cinema: O Mundo em movimento. Col. História em Aberto. São Paulo: Scipione, 1995, 103 págs.
Cada livro da coleção História em Aberto analisa um grande acontecimento histórico, como a Revolta da Vacina, a Semana de 22 ou os Grandes Descobrimentos. A editora Scipione resolveu colocar a sétima arte nessa história e daí surgiu "Cinema – O Mundo em Movimento", de Inácio Araújo.
O autor opta por não fazer uma "história do cinema", narrando suas transformações numa ordem cronológica. Em vez disso, explica o que é roteiro, decupagem, montagem, continuidade, direção, direção de fotografia, enfim, todos os elementos que compõem um filme.
Entretanto, ele tece breves apontamentos sobre os principais movimentos e escolas que marcaram a trajetória do cinema no mundo, e que fizeram da despretensiosa invenção dos irmãos Lumière um meio massivo de comunicação, com alto grau de refinamento. Para auxiliar a leitura, há ilustrações, citações, exemplos e trechos de outros livros sobre o tema.
Enquanto crítico, Inácio Araújo faz questão de apontar os fatores que fizeram de alguns cineastas figuras imortais. Alfred Hitchcock, por exemplo, teve o mérito de se apossar com maestria da chegada do som ao cinema, enquanto alguns grandes estúdios ainda torciam o nariz para a novidade.
A linguagem é simples e didática, apropriada para o público-alvo da coleção – os jovens. Cinema – O Mundo em Movimento é ideal para quem quer começar a ver o cinema "por dentro", como explica o autor no seguinte trecho:
Se não temos idéia de quantas vezes um diretor coça a cabeça em busca da melhor solução, ou antes de escolher um cenário, de achar a maneira como vai distribuir os atores em cena ou achar a posição de câmera mais conveniente para o desenvolvimento da ação, dificilmente conseguiremos captar o trabalho que temos diante de nós (e que tantas vezes parece tão simples de obter). Diremos 'gosto' ou 'não gosto' - mas sem entendermos o que realmente foi feito e o que o filme está tentando nos mostrar. Não saberemos sequer se foi bem-feito ou não.
ARAUJO, Inácio. Cinema: O Mundo em movimento. Col. História em Aberto. São Paulo: Scipione, 1995, 103 págs.
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15.12.07
A maldição do curta
O paulista Philippe Barcinski ganhou notoriedade com seus curta-metragens. É dele o impressionante "Palíndromo", vencedor do Festival de Gramado de 2002. Ao dirigir seu primeiro longa, porém, o realizador se mostra pouco à vontade, num filme arrastado, como se o roteiro brigasse com o fato de ter 100 minutos de duração. Os dois núcleos da história não se comunicam entre si, o que faz parecer que Barcinski pegou dois roteiros de curta pra fazer Não por acaso.
A primeira metade do longa é de dar sono. A história só ganha alguma pegada com a entrada em cena de duas personagens femininas - uma na vida de cada protagonista: o engenheiro circunspecto vivido pelo (excelente) Leonardo Medeiros e o marceneiro e jogador de sinuca interpretado por um preguiçoso Rodrigo Santoro.
Apesar dos bons nomes, há desequilíbrio no elenco. A tarimbada Cássia Kiss tem uma atuação afetada em sua pequena participação. Letícia Sabatella pena com uma personagem mal-ajambrada e caricata (executiva fria, estressada e fumante). Só Leonardo Medeiros está bem e sua relação com a filha rende os melhores momentos do longa.
Medeiros é um dos atores que mais têm feito cinema ultimamente no país. Depois de um longo ocaso após Lavoura Arcaica, ele esteve em "O veneno da madrugada", "Cabra Cega", "O cheiro do ralo" e agora em "Não por acaso". Se fosse criado o "Prêmio Selton Mello de onipresença", o ator estaria no páreo.
Outra ponto discutível são os efeitos visuais, de qualidade e necessidade duvidosas. Em resumo: "Não por acaso" tem alguns bons momentos que, reunidos, dariam um curta interessante.
Sinceramente, não sei o que dizer de Nina. É um filme estranho. Não necessariamente ruim. A velhinha (Myriam Muniz) é a coisa mais assustadora que lembro de ter visto no cinema pátrio. Não sei mais do que gostei. Sei do que não gostei: Guta Stresser a as cenas de festa.
O blog anda mais verde e amarelo do que nunca. As duas linhas para "Planeta Terror" é a única exceção deste segundo semestre.
A primeira metade do longa é de dar sono. A história só ganha alguma pegada com a entrada em cena de duas personagens femininas - uma na vida de cada protagonista: o engenheiro circunspecto vivido pelo (excelente) Leonardo Medeiros e o marceneiro e jogador de sinuca interpretado por um preguiçoso Rodrigo Santoro.
Apesar dos bons nomes, há desequilíbrio no elenco. A tarimbada Cássia Kiss tem uma atuação afetada em sua pequena participação. Letícia Sabatella pena com uma personagem mal-ajambrada e caricata (executiva fria, estressada e fumante). Só Leonardo Medeiros está bem e sua relação com a filha rende os melhores momentos do longa.
Medeiros é um dos atores que mais têm feito cinema ultimamente no país. Depois de um longo ocaso após Lavoura Arcaica, ele esteve em "O veneno da madrugada", "Cabra Cega", "O cheiro do ralo" e agora em "Não por acaso". Se fosse criado o "Prêmio Selton Mello de onipresença", o ator estaria no páreo.
Outra ponto discutível são os efeitos visuais, de qualidade e necessidade duvidosas. Em resumo: "Não por acaso" tem alguns bons momentos que, reunidos, dariam um curta interessante.
Sinceramente, não sei o que dizer de Nina. É um filme estranho. Não necessariamente ruim. A velhinha (Myriam Muniz) é a coisa mais assustadora que lembro de ter visto no cinema pátrio. Não sei mais do que gostei. Sei do que não gostei: Guta Stresser a as cenas de festa.
O blog anda mais verde e amarelo do que nunca. As duas linhas para "Planeta Terror" é a única exceção deste segundo semestre.
6.12.07
Surf com cérebro
A briga dos canais abertos agora à noite foi feia. A Globo apostou em Closer, A Record exibiu Crash, enquanto a Band jogou as fichas no documentário Surf Adventures. Tudo praticamente no mesmo horário. Optei por este último, primeiro porque ainda não o tinha visto e segundo porque tanto Closer quanto Crash não me despertam vontade de rever. E não é todo dia que temos a oportunidade de assistir um filme nacional no horário nobre de uma TV aberta.
E não é que o filme é bom? O documentário roda o mundo, mostrando tanto paisagens quanto tubos maravilhosos. Quando bem filmados, poucas coisas são tão bonitas quanto surfistas deslizando em ondas de 15 metros. Destaque para a trilha sonora. A Raimundos, Charlie Brown e o Rappa se juntam Cássia Eller, Jorge Ben e até Mutantes!
Quando o filme passou no cinema, eu nem dei bola. Puro preconceito. Surf Adventures é irado.
E não é que o filme é bom? O documentário roda o mundo, mostrando tanto paisagens quanto tubos maravilhosos. Quando bem filmados, poucas coisas são tão bonitas quanto surfistas deslizando em ondas de 15 metros. Destaque para a trilha sonora. A Raimundos, Charlie Brown e o Rappa se juntam Cássia Eller, Jorge Ben e até Mutantes!
Quando o filme passou no cinema, eu nem dei bola. Puro preconceito. Surf Adventures é irado.
4.12.07
Relaxa e goza
Do primeiro ao último fotograma, Planeta Terror lembra um Drink no Inferno. Só que, ao contrário deste, não se leva a sério. É o que salva.
31.10.07
Dom, Maria, Mãe do filho de Deus, Trair e Coçar... Moacyr Góes é certamente um dos cineastas que mais tem trabalhado no Brasil e um dos mais vistos. Mesmo assim, nunca ouvimos falar dele. Por quê?
Góes é aquele diretor que não tem um estilo, projetos próprios, mas um certo talento, uma polivalência, uma vocação para fazer qualquer coisa com eficiência e sem grandes aspirações artísticas. Atualmente está em cartaz com O Homem que Desafiou o Diabo. Não li o que se escreveu sobre o filme, mas se algum desavisado esperava ver cinema-como-arte, vai se decepcionar.
É um filme que tem como meta fazer rir (e consegue), conseguindo no meio do caminho alguns outros méritos: a direção de arte que remete ao hiperbólico universo do cordel, ou o elenco razoavelmente bem equilibrado. O naturalismo passa longe, mas o tom teatral dos atores não prejudica em nada o filme, pelo contrário. O sotaque também não dói nos ouvidos. Não senti os atores forçando a barra, como vimos não apenas na TV como inclusive em filmes recentes como A Máquina.
Pode-se criticar a falta de ambição estética, o conservadorismo dos enquadramentos, mas como entretenimento não há como dizer que o filme não é bem sucedido. Essa pornochanchada despretensiosa e divertida certamente vai ser muito reprisada na Globo e sua bilheteria está sendo prejudicada visivelmente pelo fenômeno Tropa de Elite. Mesmo assim, a sessão que eu fui tava cheinha.
Se Moacyr Góes não tem uma "marca", Ricardo Elias é exatamente o oposto. Os 12 trabalhos é o segundo longa do cineasta paulista. Mais do mesmo: em muitos aspectos os 12 trabalhos lembra o primeiro, De Passagem. O foco é sempre o preconceito social e racial em São Paulo. Os filmes do diretor são painéis geográficos e sociais da metróple, sem o tom caricatural com que normalmente são representados os moradores de favelas no cinema.
Em De Passagem, temos um ex-morador da periferia que, ao se tornar policial, não se sente mais à vontade entre seus pares. Em os 12 trabalhos, Elias nos apresenta a rotina do motoboy, personagem que se tornou figura onipresente na paisagem da cidade, e o quão infernal pode ser sua vida, principalmente quando se é negro, favelado e ex-interno da Febem...
O cineasta filma a vida em trânsito. Em De Passagem, mais da metade do filme se passa dentro ou em estações de metrô e ônibus. Em Os 12 Trabalhos, o protagonista Eracles nos leva pra passear por São Paulo na garupa de sua moto. Não a São Paulo do Parque do Ibirapuera ou Avenida Paulista; mas uma cidade estressante, onde a correria, a pressa, a convivência forçada entre as classes sociais escancara e atiça os preconceitos e todos acabam perdendo.
Ambos os filmes se baseiam em apenas um dia na vida dos protagonistas. Um dia é o suficiente pra mudar sua vida completamente. Ou não. No início de Os 12 Trabalhos, Eracles diz que "dependendo de onde você nasceu, já é. Sua vida já tá escrita". Para quem nasce na favela, como ele, ou você se torna policial, ou bandido, ou motoboy, ou camelô. Em uma cena divertida do filme, os colegas de trabalho de Eracles invejam o sucesso de um... vendedor de cachorro-quente: é o auge de suas pretensões.
Góes é aquele diretor que não tem um estilo, projetos próprios, mas um certo talento, uma polivalência, uma vocação para fazer qualquer coisa com eficiência e sem grandes aspirações artísticas. Atualmente está em cartaz com O Homem que Desafiou o Diabo. Não li o que se escreveu sobre o filme, mas se algum desavisado esperava ver cinema-como-arte, vai se decepcionar.
É um filme que tem como meta fazer rir (e consegue), conseguindo no meio do caminho alguns outros méritos: a direção de arte que remete ao hiperbólico universo do cordel, ou o elenco razoavelmente bem equilibrado. O naturalismo passa longe, mas o tom teatral dos atores não prejudica em nada o filme, pelo contrário. O sotaque também não dói nos ouvidos. Não senti os atores forçando a barra, como vimos não apenas na TV como inclusive em filmes recentes como A Máquina.
Pode-se criticar a falta de ambição estética, o conservadorismo dos enquadramentos, mas como entretenimento não há como dizer que o filme não é bem sucedido. Essa pornochanchada despretensiosa e divertida certamente vai ser muito reprisada na Globo e sua bilheteria está sendo prejudicada visivelmente pelo fenômeno Tropa de Elite. Mesmo assim, a sessão que eu fui tava cheinha.
Se Moacyr Góes não tem uma "marca", Ricardo Elias é exatamente o oposto. Os 12 trabalhos é o segundo longa do cineasta paulista. Mais do mesmo: em muitos aspectos os 12 trabalhos lembra o primeiro, De Passagem. O foco é sempre o preconceito social e racial em São Paulo. Os filmes do diretor são painéis geográficos e sociais da metróple, sem o tom caricatural com que normalmente são representados os moradores de favelas no cinema.
Em De Passagem, temos um ex-morador da periferia que, ao se tornar policial, não se sente mais à vontade entre seus pares. Em os 12 trabalhos, Elias nos apresenta a rotina do motoboy, personagem que se tornou figura onipresente na paisagem da cidade, e o quão infernal pode ser sua vida, principalmente quando se é negro, favelado e ex-interno da Febem...
O cineasta filma a vida em trânsito. Em De Passagem, mais da metade do filme se passa dentro ou em estações de metrô e ônibus. Em Os 12 Trabalhos, o protagonista Eracles nos leva pra passear por São Paulo na garupa de sua moto. Não a São Paulo do Parque do Ibirapuera ou Avenida Paulista; mas uma cidade estressante, onde a correria, a pressa, a convivência forçada entre as classes sociais escancara e atiça os preconceitos e todos acabam perdendo.
Ambos os filmes se baseiam em apenas um dia na vida dos protagonistas. Um dia é o suficiente pra mudar sua vida completamente. Ou não. No início de Os 12 Trabalhos, Eracles diz que "dependendo de onde você nasceu, já é. Sua vida já tá escrita". Para quem nasce na favela, como ele, ou você se torna policial, ou bandido, ou motoboy, ou camelô. Em uma cena divertida do filme, os colegas de trabalho de Eracles invejam o sucesso de um... vendedor de cachorro-quente: é o auge de suas pretensões.
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